Sobre o Rei do Pop
Se você é daqueles que passou as três últimas décadas vivendo em cavernas, desenhando alces e dinossauros nas paredes com raízes e sangue de búfalos, arrastando fêmeas pelos cabelos para procriação violenta e lendo livros de Paulo Coelho, parabéns. Além de ser um completo neandertal, você é um retardado e não sabe que nesta quinta-feira, 25 de junho de 2009, o Rei do Pop nos deixou.

Aquela figura decadente, de feições fantasmagóricas e que nos últimos anos apenas frequentava a mídia de forma quase cômica - “michael jackson isso, michael jackson aquilo, pedofilo rsrs” - agora não se encontra mais no mundo real. Ou pelo menos no mundo físico, já que o mundo real ele já tinha deixado há muito, muito tempo.
Primeiro, chega a ser irônico pensar que Michael Jackson está morto. Estranho mesmo era pensar que ele ainda estava vivo, cara. Não é difícil descobrir a magnitude de Michael Jackson. No artigo do Rei do Pop na wikipedia, você pode ter bilhões de referências sobre o quão grande foi o astro. Não é exagero dizer que Michael Jackson é o maior artista musical de todos os tempos.
Fato é que eu gostava de Michael Jackson, cara. Não só gostava, admirava de verdade. O mais estranho é ver a reação das pessoas quando eu digo que gosto de verdade de Michael Jackson. Francamente, não conheço ninguém - pessoalmente ou não - que se declarava assumidamente fã do cara. Não é necessário ter pôsteres na parede e ter todos os discos para se declarar fã, apenas apreciar a essência e a importância de um dos maiores (se não o maior) gênios da música pop.
Pra ilustrar, vamos voltar aos meus 13 anos, época dourada que hoje se encontra registrada apenas nas lembranças do [RAGE] e… bom, este site.
Essa simpatia pelo rei do pop começou quando assisti o clipe de Thriller. Antes de conhecer essa obra magistral, eu só ouvia “Thriller isso”, “Thriller aquilo”, “Papapapa tchaaan”, mas nunca sequer tinha visto do que realmente tratava “Thriller”. Com o advento da banda larga e televisão à cabo, a MTV me mostrou o que era, então, THRILLER. E, puta que me pariu, eu adorei aquilo.
Aquela parecia a fórmula perfeita da felicidade. Um clipe de treze minutos com zumbis, música boa e uma dança tão escrotamente alucinante que faz qualquer um balançar o esqueleto, com o perdão do trocadilho, até hoje. Eu duvido que não tenha uma pessoa que não reconheça aqueles movimentos cambaleantes e jogadinhas de braço zumbilescas.
Ainda hoje acho que os caras da Capcom deveriam colocar um modo THRILLER em Resident Evil.
Sempre fui apaixonado por videoclipes, mas aquilo era diferente. Na época, costumava gravar em VHS os clipes que mais gostava pra depois passá-los para fita cassete (essas de ouvir). Esse processo seria mais tarde substituído pela aliança entre Kazaa e internet banda larga - na época, se movendo a alucinantes 64kbps - “8kB/s? Eu quero é mais!”.
Então, tive a idéia de baixar Thriller. Mas o que uma pessoa com uma internet tão limitada e um HD tão ridiculamente pequeno tem na cabeça pra ocupar seus últimos 200MB livres e suas próximas 10 horas com um download de clipe musical? Também não sei, só sei que não me arrependo.
Ao terminar, assisti o vídeo umas oito vezes seguidas. Reunimos os melhores cientistas da região para calcular o tempo que levei para assistir o vídeo tantas vezes e chegamos à conclusão de que gastei tempo pra caralho da minha vida assistindo Thriller.
Quando falei para meus amigos, eu juro pra vocês pela minha mãe vestida de Rambo, a reação foi exatamente essa:
– Véi, baixei um clipe de 132MB.
– CARALHO 132MB CÊ É LOOOCOOO
– Bora assistir.
E assistimos o vídeo mais algumas vezes, gerando inúmeras risadas e criando centenas de piadas internas com o rei do Pop. Tenho certeza que antes do meu último suspiro, vou olhar pra trás e pensar “eu poderia ter mais algumas boas horas de vida se não tivesse assistido Thriller aquele dia”.
Daí pra frente, comecei a gostar mais e mais de Michael Jackson. Não era meu artista número 1, lugar que sempre foi e será reservado para o não menos excêntrico Renato Russo, mas ainda assim era uma grande admiração. A cada música que baixava, maior era o interesse pela importância e maior era a admiração pelo talento do maior nome da música Pop da história.
É impossível que você não conheça clássicos como Thriller, Beat It, Billie Jean, Bad, Black and White, Smooth Criminal. Mesmo se não por nome, tenho certeza de que você reconheceria essas músicas tocando no rádio, por mais raro que isso seja hoje em dia.
É impossível também que você nunca ensaiou um passo de dança à lá Michael Jackson. Quem nunca arriscou um moonwalker e foi terrivelmente mal-sucedido?
É impossível também ser indiferente à perda de um ídolo. Michael Jackson poderia não mais ser aquele dançarino genial nem ter a mesma voz poderosa e marcante, mas ainda era Michael Jackson. Seja colocando criancinhas na janela, seja marcando uma sequência de 50 shows depois de tanto tempo afastado.
A morte de Michael Jackson é um momento daqueles que daqui trinta anos você vai poder virar e dizer pra seus filhos, netos, bisnetos se você não tiver televisão ou qualquer outra forma de diversão em casa e só pensa em trepar.
Não vi Elvis, não vi Hendrix. Eu vi Michael Jackson, e acho que isso é o bastante.
Não vemos agora, no twitter por exemplo, mensagens de adeus ou emocionadas. Vemos piadinhas de ocasião que não terão graça alguma daqui três horas, mesmo porque não têm a menor graça agora. Se você faz piada com Michael Jackson hoje, é porque ele cumpriu seu objetivo com louvor.
Ser o maior artista de todos os tempos.
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