May-13-2008

Não tenho medo do escuro

Fãs de Legião Urbana, uni-vos. É hora de tirarmos nossas camisetas pretas do armário, rasgar as nossas calças à altura dos joelhos, deixando nossas pernas brancas e peludas à mostra, e calçarmos nossos tênis mais sujos.

Em 2004, quando o filme Cazuza - O Tempo Não Pára foi lançado, o ‘boom’ do rock nacional foi espetacular. Parecia que os fabulosos anos 80 haviam voltado, todo mundo havia vivido os 80’s à mil. Caso você tenha vivido numa caverna nos últimos vinte anos, os anos 80 foram marcados pela revolução e expansão das bandas nacionais, principalmente pela cena do rock de Brasília, influenciada pelo punk inglês - na época tocado nos lugares mais undergrounds de Nova York.

A fama de Cazuza na época aumentou vertiginosamente graças à uma única pessoa: Lucinha Araújo, assessora de marketing, que nas horas vagas costumava atuar como sua mãe. Através de entrevistas e todo tipo de mídia disponível, Lucinha idolatrava o finado filho como um Deus. Tanta exposição fez com que Cazuza, de grande letrista e intérprete, passasse a ser venerado pela galerinha adolescente como MAIOR DEUS DO ROCK NACIONAL DE TODOS OS TEMPOS.


Cazuza é como meu amigo Théo, um tanga.

Se na época as camisetas estampadas com a face de Cazuza formassem um país, elas possuiriam o terceiro PIB, teriam a maior concentração demográfica e maior taxa de natalidade mundiais. O público da faixa dos 14-16 anos foi atingido por uma avalanche de Cazuza, Cazuza e Cazuza. Seu nome começava a encabeçar listas de ídolos, suas músicas eram as mais pedidas nos botecos, Cazuza virou ícone pop.

O combate era cruel. Os novos fãs queriam provar aos antigos fãs de que eram mais fãs do que eles, porque tinham acesso a muito mais informação, vídeos e uma quantidade muito maior de Mp3. Toda uma coleção de discos de vinil empoeirados perdem o valor quando se tem a discografia inteira num disco de DVD. Todos os fãs mais antigos, daqueles que viveram a época, que conheço simplesmente abominam o filme e a imagem construída de Cazuza após o mesmo. Ele foi anárquico, rebelde e talentoso, mas em momento algum foi um mártir, um salvador da música. O fato de ter morrido no auge, assim como Kurt Cobain, o transformou num mito.

A imagem de outro ídolo contemporâneo, Renato Russo, ficou mais discreta. Os dois eram bissexuais, usaram praticamente todo tipo de droga e eram soropositivos. Porém a contribuição de Renato Russo à música nacional foi muito maior: ele praticamente trouxe o Rock para Brasília. Junto de Flávio e Fê Lemos, além de André Pretorius, fundaram o Aborto Elétrico, talvez a maior influência do rock nacional de todos os tempos. Cazuza foi um grande poeta, se você souber algo que ele fez além disso, me informe.

O fato é que tão fazendo um filme sobre Renato Russo.

Desde o começo da humanidade, é de consenso geral que os fãs de Legião Urbana, talvez depois dos flamenguistas e dos viciados em quadrinhos, são as pessoas mais chatas da face da Terra. Se fôssemos dividir os fãs de Legião em três grupos, seriam divididos em mais ou menos isso:

Simpatizantes

Gostam da música, têm algumas mp3 no computador. Sabe a letra das músicas mais famosas, mas nada além disso. Não possui camisetas ou qualquer tipo de souvenir referente à Legião Urbana.

Fanáticos

Gostam da música, têm a discografia em mp3 no computador. Sabem a letra da grande maioria das músicas, sabem uma ou outra parte de toda a história da banda e de seus integrantes. Entrevistas e matérias que citam levemente a banda despertam sua atenção, discutem sobre Legião com seus amigos, sempre a colocando no pedestal mais alto do Universo musical.

DOENTES

São APAIXONADOS pela música, têm a discografia em mp3 e em CDS, além de alguns discos de vinil embrulhados em sacos plásticos, conservados desde a década de 80. Além dos discos do Legião, possuem todos os trabalhos solo dos integrantes e material do Aborto Elétrico. Conhecem a letra de todas as músicas já tocadas pela banda em quinze anos de carreira, desde as mais conhecidas até as mais obscuras, cantadas em shows ou as canções preferidas de Renato Russo ao chuveiro.

Também decoram as falas de Renato no espaço entre as músicas, coisa bem comum nos discos ao vivo. Além da letra, estudam religiosamente o significado de cada palavra, cada entrelinha das músicas.

Têm como mestre tutor e messias o próprio Renato Russo, sempre usando citações suas como se fossem ditados chineses milenares. Qualquer comentário ou ofensa dirigida ao Messias Legionário é abolida da face da terra ao custo de horas e horas de explicações sobre ‘quem foi Renato Russo’, ‘Renato Russo uma vez disse…’ ou ’se você está sentado nesta cadeira de bar e tomando esta cerveja, pode acreditar que Renato Russo tem uma parcela de culpa disso’. E claro, sempre se referem ao Messias simplesmente como “Renato”, usando só o primeiro nome como se fosse só mais um parente próximo ou que freqüentasse sua casa todos os dias.

Sabem não só a história da banda como a biografia de todos os seus músicos, incluindo detalhes como nomes de parentes, freelancers que tocaram por meio show e por onde eles andam atualmente. Têm um caderno onde escrevem todas as letras de todos os discos, como se os encartes e as letras na Internet não fosse o bastante. Usam a mesma camisa preta do Legião, daquelas com letra de música nas costas, desde 1998 em todas as festas, bares, encontros e shows que vai desde então. Camisa, inclusive, que está CINZA e com as estampas caindo aos pedaços, impossibilitando o reconhecimento tanto das pessoas como da letra. Possuem todos os livros, revistas, matérias e citações de meia linha sobre o Legião Urbana já publicados em quatrocentas e dezoito línguas diferentes.

E principalmente: abominam especiais da Globo sobre o Grão Mestre Tutor Divino Messias Legionário Poeta Renato Russo. Segundo eles, ‘isso só contribui para a popularização do mito, atraindo falsos fãs”. Isso quando não dizem apenas “globo fdp faz td errado aff tem nd a ve…. aff carai renato foi mto mais q isso”.

***

É claro que existem muito mais pessoas que NÃO GOSTAM de Legião Urbana do que fãs. Pagodeiros, micareteiros, a turma do funk, do rap, do sertanejo, até os primos metaleiros não gostam de Legião. Perceba que quando o assunto é Legião Urbana, não existe meio termo. É como comer merda: ou você come e gosta, ou você abomina e… BLOARGHADS GAHD.

Fãs chatos se multiplicando exponencialmente, estou pagando pra ver. Tava sentindo falta de flames por aqui.

Categorias: Mundo Animal
May-11-2008

Doença de velho

Cara, antigamente eu fazia um, quiçá dois posts por dia numa porrada só.

Hoje fico três, quatro dias trabalhando em UM post. Tô ficando velho.

Categorias: Diarinho Gay Homossexual
May-4-2008

A Engenharia de Deus

Olhe ao seu redor e tente ver o quanto Deus foi generoso ao criar a vida, o Universo e tudo mais. Não, sério, olha bem. Criou os armários pra segurar os livros, criou os tapetes pra evitar que nossas cadeiras deslizassem desenfreadamente em direção à parede mais próxima, criou os sapatos para poupar nossos pés das mais terríveis moléstias que existem por aí.

Quando Deus criou o homem, ele rasgou seu diploma de Engenharia, tentou apagar com gasolina - o que não deu lá muito certo, fazendo-o estancar as chamas com um pedaço de pau, pra depois apagar a porra toda com um balde de merda. Depois vendeu no eBay.

Agora pare de olhar para a caixa onde seu pai guarda as Playboys de 1983 em diante e volte os olhares a você mesmo. Olhe suas mãos peludas e lembre-se de quando éramos macacos. Se essas lembranças não fazem mais parte do seu cérebro, lembre-se do nosso amigo Marquinhos, na terceira série.


Marquinhos sempre alegre e sorridente. Saudoso Marquinhos.

Deus é um engenheiro de segunda porque ele nos fez com itens de série que simplesmente não têm utilidade nenhuma. Ao invés de nos equipar com MP3 players e telas de LCD, Ele colocou unhas, pêlos nas axilas e apêndice.

Estes três itens nos proporcionam tantas utilidades como uma tromba num automóvel.

Unhas

Ok, éramos macacos, tínhamos garras fortes que nos permitiam descascar sementes e outros frutos de cascas duras e tudo mais. Todo animal tem garras. Mas só porque éramos macacos não significa que temos que carregar as características dos mesmos. Não pulamos mais entre os galhos, não sobrevivemos de bananas e não andamos com nossos derrières à mostra. Bom, pelo menos não na maioria do tempo.

Nossas unhas não servem para absolutamente nada. Não nos permitem escalar árvores nem muito menos têm função de proteção. No máximo proporcionam um detalhe estético nas mulheres, mas nos homens passa despercebido. A não ser que você, amigo leitor, seja TANGA e ‘usa base pra deixar suas unhas brilhantes e protegidas’.

O mais engraçado é que, pelo menos até onde o meu pequeno conhecimento de Discovery Channel me permite chegar, nós somos os únicos animais que comem as próprias unhas.

Pêlos nas axilas

Eles começam a se desenvolver na puberdade, junto com todos os outros pêlos do corpo. Eu, no auge dos meus 13 anos, já não conseguia mais admirar minha axila nua. Alguns demoram um pouco mais, e estes são os mais sacaneados pelos amigos na hora de tirar a camisa.

Somos mamíferos, portanto, por definição, somos bichinhos peludos e fofos. Todos os pêlos do corpo humano têm alguma função. Os pêlos das pernas e braços, na teoria, serviriam para nos aquecer como fazem com os outros mamíferos, mas falham miseravelmente ao exercer tal função. Mas eles não podem ser caracterizados como inúteis, já que nos definem como mamíferos. Se tirarem estes pêlos de nós, seríamos peixes.

As sobrancelhas evitam que muitas coisas ruins caiam sobre os olhos, como poeira, caspa e restos de comida se você come através de uma boca na testa. Os cílios também protege os olhos, muito sensíveis, de ciscos, poeira e tudo mais. O bigode serve para acumular restos de comida, para oferecer uma segunda refeição a qualquer hora do dia. A barba, no caso dos homens e de algumas mulheres, serve para nos deixar mais másculos e viris. Os pêlos pubianos têm sim função de proteção, mais uma vez evitando que pedaços de coisas ruins caiam em nossos genitais, protegendo nossas crias. Duvida? Imagine um pedaço de pão entalado na sua uretra.

Agora pêlos nas axilas servem para quê? Protegem do vento? Esquentam? Não! Eles estão lá só para acumular mais suor e nos proporcionar fabulosas pizzas, aqueles círculos de suor que crescem nas axilas espontaneamente. Fora há a contribuição para a flora microbiana da região. Aqueles chumaços de pêlos formam um playground perfeito para bactérias, fungos e rinocerontes. Uma vez aquecidos e confortáveis, eles se reproduzem insanamente nonstop, até que um cogumelo nasça debaixo do seu braço.

Apêndice

O Apêndice é a forma mais cruel da negligência de Deus quando nos projetou. Trata-se de um pequeno órgão sem função alguma ligado ao ceco, o começo do intestino grosso. A grande questão é: o que Deus tinha na cabeça ao manter um órgão tão imbecil dentro da gente, enquanto ele poderia simplesmente eliminar isso conforme nos evoluía como Pokemons?

Esta belezinha tem função benéfica praticamente nula: produz glóbulos brancos, mas em pequena quantidade. No outro lado da corda, os riscos de se manter esta rebimboca no nosso corpo são enormes. A qualquer momento de sua vida, inclusive enquanto você lê este texto, seu apêndice pode inflamar e te proporcionar dores abdominais absurdas.

Como ‘dor pra caralho’ nunca é suficiente, problemas maiores costumam acompanhar o apêndice nesta empreitada. Se não for retirado a tempo, ele corre o risco de simplesmente EXPLODIR, liberando fezes e pus dentro de você. Isso tudo ainda provoca uma grave infecção, que geralmente resulta em morte.

Através de analogia, vamos tentar entender o apêndice. Imagine que você herda uma usina termelétrica que está na sua família há muitos anos. Esta usina fornece tão pouca energia que você simplesmente a mantém lá porque vendê-la ou destruí-la daria trabalho demais para algo tão inútil. Só que a usina é anexa à sua casa, e ambas estão situadas sobre um pântano rico em gás natural. Se uma faisca escapar, todo o lugar vai pelos ares.

*a apendicite é mais comum na adolescência, o que faz você leitor deste blog ser MUITO MAIS SUSCETÍVEL a morrer enquanto lê estas linhas.

Custo-benefício

Se Deus fosse um bom administrador, o custo-benefício do ser humano seria muito maior. Enquanto ele gasta tanto com tais itens de série sem função alguma, poderia gastar a mesma quantidade nos equipando itens mais interessantes.

Um recall total seria o ideal. Voltaríamos à fábrica para troca de peças. Saem as unhas, pêlos nas axilas e apêndices, entra visão de raio-x, habilidade para voar ou super-força.

Tudo bem que o resto que ele criou é sensacional, cheio das complicações e descomplicações que só um cara tão legal quanto o próprio Deus é capaz de criar. Mas dar uma caprichadinha às vezes é bem legal, tipo quando, na aula de Educação Artística, você sempre entregava os desenhos em preto-e-branco por preguiça de pintar. “É meu estilo” era sua desculpa. Mas seu coleguinha sempre fazia desenhos piores, mas bem pintados. A professora gostava mais dele.

Se eu tivesse visão de calor, queimava ele todinho.

Categorias: Mundo Animal
Apr-28-2008

AOE Blogs de cara nova!

E nesse instante eu peço que você pare tudo o que estiver fazendo ou pensando fazer, porque eu vou falar sobre a novidade mais quente da galáxia.

Nos tempos áureos da blogosfera oldshool brasileira, as pessoas costumavam parar o Théo na rua para lhe fazer perguntas. Como o Théo abandonou os dias de blogueiro e passou a ser só tanga, as pessoas começaram a ME parar na rua também e pelo visto elas gostam mesmo de fazer perguntas.

- Tio Raphs, a Internet está acabando?

Deixo claro para elas que eu prefiro uma conversa quente, mas elas são insistentes. Não é do meu feitio deixar as pessoas com suas línguas de fora babando por uma informação, enquanto eu ordeno que elas rolem no chão ou finjam de mortas. Eu tenho a informação, eu dou a informação.

Digamos que sua vida se resuma a emocionantes três dias de vida: anteontem, ontem e hoje.

Anteontem você usava ICQ, sofria com o limite de 2MB de seu e-mail no BOL, baixava músicas em sites de fundo preto com milhões de gifs de tochas e caveiras girando - os mesmos sites que tinham sessões hacker que ensinavam você a ‘pegar o IP de alguém no chat da UOL’ e ‘como invadir computadores através de IP’. Blogs eram ferramentas pessoais cheios de gifs piscantes sobre todas as bandas ruins que seus amigos ouviam. Eram usados apenas para contar o cotidiano do dono, que em 96% dos casos era miseravelmente sem graça e imbecil.

Ontem você usava seu MSN Messenger, teve seu limite de e-mail aumentado para inacreditáveis 10MB, baixava músicas pelo Kazaa e perdia horas e horas em sites bacanas da Internet. Sites tão legais que faziam você pensar que a Internet não tinha limites. Os blogs já começavam a se tornar menos pessoais e mais interessantes, com destaque para os blogs de humor - tanto os de humor pronto quanto os que postavam hilários textos gigantescos, meus favoritos. A quantidade de gifs caiu consideravelmente.

Hoje você usa o Windows Live Messenger, tem e-mail de 1Terabyte, tem conta em bilhões de sites de relacionamentos, acessa os melhores vídeos da Internet com a rapidez de um clique. Tem uma nova febre surgindo todos os dias, novos conceitos, novas modas, novos sites, tudo novo, todo dia. A Internet parece tão infinita que se torna maçante. Os blogs se tornam ferramentas de promoção pessoal: surgem os pro-bloggers, uma raça de blogueiros que tem como único objetivo o lucro. O conteúdo geralmente é inexistente - quando não falam de si mesmos, falam sobre como é bom rular na life e ser alguém pseudo conhecido: ‘ontem fui à festa tal, encontrei o blogueiro x [link] e o y [link] e nos divertimos muito. Parabéns à [empresa] que fez uma festa maravilhosa’ e faz um marketing grátis do tal produto.

Eu vos apresento o amanhã - e amanhã parece que vai ser… quente. heh

O AOE Blogs, um projeto pertencente ao Ato ou Efeito, era como um gueto. Alguns pequenos e modestos casebres, moradores simples mas limpinhos, que pagavam seu aluguel em dia e viviam tranquilamente. Crianças jogavam bola no pátio todos os dias. Foi então que Théo, numa jogada desesperada para provar que não era tanga, reuniu o time de blogueiros mais quente da galáxia e transformou o AOEBlogs no condomínio mais quente da região. Agora temos mansões, carros importados e uma fonte no meio do jardim, onde suecas peitudas nuas se banham todos os dias às onze da manhã.

Pontuais essas suecas.

Juntando-se aos antigos moradores estão:

Cegos, Surdos e Loucos
O Eric já tá com a gente faz algum tempo, além de ser colunista do próprio AOE. Tem o conteúdo musical mais quente da galáxia, com análises cremosas dos sucessos que agitam o auditório do Faustão.

Esculhambação
Quando o Théo falou que o E! iria ser meu vizinho, eu mal acreditei que o Canequinha iria morar aqui perto de casa. Como saudosismo pouco é bobagem, lembrarei sempre os melhores momentos da Copa 2006 ao lado dele. Preencha-me com cerveja!

A Grande Abóbora
É irresistível se referir a ele como ‘A Grande Abórba’, fala sério. O melhor blog sobre tudo: entre uma e outra presepada, pitacos apurados (e sinceros) sobre arte moderna. Imperdível!

Hoje é um Bom Dia
Sinceramente, sou suspeito pra falar do HBD. O Kid é o blogueiro mais gelado do AOE Blogs. Um exemplo do suíngue brasileiro nas geladas e prósperas terras canadenses. O cara escreve os melhores textos da galáxia e pode comprar 3 PS3 por semana, porra. Precisa falar mais alguma coisa?

Mau Gosto
Com a gente desde o começo, o blog mais indie da galáxia promete deixar de ser tão alternativo e aderir às dancinhas da moda.

Me sinto um lambari perto de tanto peixe grande, sério. Aí você vem e pergunta:

- Ahh tio Raphs, então vocês estão se vendendo?

Eu respondo que não e te compro um pirulito pra parar de ser chorão. O AOE Blogs é um projeto que visa conteúdo, não lucro. Imagine que estamos nos tornando algo parecido com a Liga da Justiça: nos reunimos por um bem maior. Só que em vez de bater em vilões malvados, proporcionamos a você leitor o conteúdo mais quente da galáxia!

É impressão minha ou isso aqui acaba de ficar mais… quente? heh

Categorias: Blolololololoolgueiros
Apr-24-2008

Raphs,

Tamanho não é documento, mas…

Te Wubo, demais.

Por: Laura Calanga. <3

WUB

Categorias: -
Apr-22-2008

A mais bonita

Depois de muita pesquisa, cheguei à conclusão de que a mais bela palavra do português brasileiro é COXINHA.

 

Onde está seu Deus agora?

Categorias: Imbecil
Apr-17-2008

Sobre Landau, balizas e as cabeças de pedra da Ilha de Páscoa.

Para algumas pessoas, o volante é a extensão do seu próprio braço. É como se o X-Buster do Megaman substituísse seu braço esquerdo e, ao tocar no possante, o carro apenas obedecesse a todo e qualquer comando mental do motorista. Dirigir é apenas atividade instintiva, como comer, andar e falar mal de Naruto.A frota brasileira de veículos é de aproximadamente 20 milhões de automóveis, para mais. Perceba mais tarde como esta informação não irá adicionar em nada o conteúdo do texto.

O ato de guiar um automóvel em geral é uma tarefa fácil. Mais fácil ainda para quem não tem medo de levar consigo retrovisores alheios e chocar-se levemente com para-choques de carros mais caros que o seu. E muito mais fácil para quem passa a utilizar o carro para tudo, usando como desculpa coisas pequenas como buscar o pano de prato que sua mãe emprestou pra Dona Lourdes, ou a panela que seu tio Sérgio deixou na casa do Carlão Mecânico quando fez aquela vaca atolada no domingo passado.

Principalmente para quem acaba de tirar sua carteira de motorista.

Mas não pra mim. Não que seja difícil, mas para mim ainda é um desafio. Posso contar as vezes que ocupei o banco do motorista utilizando apenas os dedos das mãos de um personagem de desenhos animados antigos. A falta de experiência fica evidente quando uma manobra de dificuldade média se torna tão trabalhosa quanto salvar a humanidade de um cometa gigante se aproxima a duzentas vezes a velocidade do som.

Por essas e outras que eu queria ser Bruce Willis.

Vou confessar, eu não sei estacionar meu carro. O que aprendemos nas aulas de baliza é simplesmente um adestramento para fazer o necessário na hora do exame, nada além disso. Não aprendemos a estacionar o carro em vagas onde cabem apenas um carrinho de pipocas ou sequer como entrar naquela vaga que surge do nada, quando aquele moço do Passat percebe que esqueceu a filha em cima do caixa do supermercado e libera a vaga do estacionamento só pra você.

O que eles ensinam é como utilizar as marcações dos carros DELES a seu favor na hora do exame, onde você estaciona entre cabos de vassoura pintados de branco com base de plástico.

Hoje botei minhas habilidades ao máximo. Ao pegar o carro sozinho pela terceira vez, fui praticamente obrigado a estacionar o carango no centro da cidade. Não é necessário dizer que estacionar no centro é terrívelmente impossível, com o agravante de ter como destino APENAS um prédio DE FRENTE para a praça central da cidade. É como viajar para o centro da Amazônia, tropeçar num galho de árvore, cair numa tumba gigante, descobrir uma cidade inteira feita de ouro puro e ainda capturar um pokémon no mesmo dia.

Depois de alguns quarteirões desviando de charretes, cavalos e crianças jogando pião no meio da rua, finalmente avisto a praça. Lá está ela, sempre florida e cheia de gente. “Cheia de gente que vai ficar vendo eu estacionar esta merda”, pensava. A dois quarteirões do trabalho, avisto uma vaga enorme para uns quatro ou cinco carros. Era um lago de águas geladas e azuis envolto por uma vegetação do mais vivo verde, onde mulheres nuas banhavam-se. Como todo viajante do deserto que encontra um oasis, rapidamente arranquei minhas roupas e pulei no lago, estacionando perfeitamente o carro na enorme vaga disponível.

Desci do carro feliz e o tranquei, como todas as pessoas normais que possuem um carro sem travas automáticas fazem. O carango estava lá, posicionado perfeitamente. Todo sereno, com uma feição até sorridente por ter sido tratado com carinho mesmo em uma situação tão tensa. Porém, um quarteirão à frente, encontro uma vaga perfeita para meu possante, a poucos passos do trabalho. Foi como o sol saindo por trás das nuvens numa manhã de domingo. Havia ali espaço livre suficiente para dois carros grandes. Ou um Landau, se você tiver passagem pela Marinha. Pilotar aquilo deve ser como manobrar uma caravela no asfalto.


A Mulher Melancia não tem tanta bunda assim depois que você vê um Landau

Como diria aquele ditado chinês, “em time que está ganhando não se mexe”. Eu sinceramente acredito que todas as maiores cagadas da história da humanidade foram feitas justamente quando tudo estava bom e em ordem, quando algum imbecil desocupado achava que poderia melhorar.

Era um desafio. Eu precisava aprender a estacionar na marra. Eu me julgava completamente capaz de estacionar meu pequeno carro naquela simpática vaga.

Então fui. Voltei ao veículo e confesso nunca ter girado a chave no contato com tamanha confiança. Eu era o ás do volante. Eu era o melhor. Eu era o máximo. Aproximei-me da vaga. É agora. Eu sou o máximo. Seta? Que parem o trânsito, eu sou o piloto de fuga aqui. Parem seus carros e observem. Embiquei o carro à minha direita de uma maneira estranha, mas achava que era normal. A gente aprende a fazer parecido na auto-escola. Ao tentar corrigir, meu erro.

O esquema da marcha-ré deveria receber mais atenção nas aulas da auto-escola. Pra falar a verdade, a gente não aprende absolutamente nada das manhas e maciotas que andar de costas exige. É como ver o mundo ao contrário. O carro estava parado numa posição absurdamente torta, com o pneu dianteiro encostado na calçada. Ao tentar corrigir, virei totalmente o volante para a esquerda, tentando fazer o carro inverter o ângulo do carro de maneira que seu traseiro não ficasse virado para a rua.

Como não consigo expressar em palavras a posição tântrica na qual meu lindo Corsa chumbo, vou resumir: não importa o que eu fizesse ou pra onde eu virasse, eu voltava para a mesma posição. Quanto mais eu tentava consertar, mais eu cagava totalmente a manobra. Na segunda ou terceira ida e volta, uma mocinha que trabalha numa sorveteria ao lado do jornal começou a rir de mim. Eu comecei a rir junto, pra não ficar sem graça - embora a graça ali fosse justamente eu.

Sinceramente, eu não sabia o que fazer. Eu poderia continuar tentando por horas e horas, ou até que o pouco combustível habitual se esgotasse, e jamais conseguiria consertar tamanha merda. Sozinho eu não estacionaria ali. Então engoli todo o orgulho de macho alfa e pedi ajuda à pessoa mais próxima: o rapaz da Área Azul.

Esses indivíduos são como parquímetros humanos. Eles ficam o dia todo ‘protegendo’ as ruas do centro da cidade, cobrando R$ 1,30 por cartões que dão direito a estacionamento por duas horas. Como sempre, não perguntei o nome. Vou chamá-lo de Moisés, afinal ele abriria o Mar Vermelho para mim.

Estiquei o braço e fiz o símbolo universal do “Vem cá”, abrindo e fechando a mão direita. Ele estava próximo ao carro, provavelmente rindo por dentro, e se aproximou de vez.

- Sabe aqueles caras que acabam de tirar carta e não sabem dirigir?
- hahasçlhkdf sei sim.
- Então, eu sou um deles.
- Mas pode ficar tranquilo, tem espaço pra tu entrar, tá longe ainda.
- Velho, eu simplesmente não faço a menor idéia do que fazer.
- Hahahahçsdklf então vai que eu te ajudo.

O próprio Deus falou comigo naquele momento através do garoto de roupa azul. Então Moisés, com a maior tranquilidade do mundo, disse duas frases:

- Esterça o volante só um pouquinho pra cá. Isso. Agora vai reto, sem mexer.
- Agora esterça o volante pra lá. Isso, agora vai pra frente. Prontim patrão.


“Esterça o volante pra cá”, disse Moisés.
E o povo de Israel pôde enfim estacionar seus carros tranquilamente.

Ao descer do carro, meio que não acreditei. Eu nunca tinha parado tão perfeitamente reto na minha vida inteira, mesmo quando não havia nenhum carro no resto do quarteirão. Havia uma linha pontilhada que indica o limite no qual o carro deve estar estacionado e não somente eu estava dentro, como estava perfeitamente paralelo a ela.

Percebi então que o ato de estacionar, pelo menos por enquanto, é equivalente a taxiar um avião. Para mim é necessário uma pista inteira e exclusiva.

E eu ainda mato alguém por asfixia por não saber usar as vírgulas.

Categorias: Diarinho Gay Homossexual
Apr-5-2008

Encontro do conhecimento com a oportunidade

Que o mundo tá cheio de coisas ruins, todo mundo sabe. Coisas ruins pra caralho. Tem gente jogando criança da janela. Eu acho que jogar crianças deve ser mais divertido que jogar ovos, conforme dito aqui eras atrás. Deve ser tão legal quanto arremessar um gato do vigésimo sétimo andar.

Pessoas assim são presas, pagam por seus pecados. Mais do que justo. Pessoas boas vão sofrendo com os infortúnios do infame acaso. Eu me considero uma pessoa boa. Nunca joguei criança de janela.

Eu, por exemplo, estou passando por uma maré de azar infinita. É como se Deus inundasse toda a superfície do planeta com gasolina. Dá pra nadar, até. Então Deus, que é um cara maroto, risca um palito de fósforo divino e o arremessa em direção ao oceano inflamável no exato momento que eu alcanço terra firme.

Como se não bastasse as moléstias das últimas semanas - virose, o dente do siso, o pé na bunda - acontecem pequenas catástrofes que fazem tudo piorar. Não vou negar que estou numa fase emo e passando por dias seguidos de fossa profunda. Eu sei que não combina e tal, aliás minha vida pessoal não é das mais interessantes, mas é verdade. Tem dias que não dá vontade de sair da cama - embora eu tenha a consciência de que ocupar a cabeça é necessário. É como eu sempre digo: cabeça vazia é o Photoshop do diabo.

Um pequeno probleminha aconteceu com o curso de inglês da minha irmã. Algo que eu nunca pretendia ter dor de cabeça, mas acabou se transformando num beliscão no mamilo que me perturba todo mês, depois do dia 20. O problema é que eu passei seis cheques pré-datados - nem sei pra que são, provavelmente parcelas da matrícula - para todo dia 10 de cada mês.

O setor financeiro dessa escola de idiotas, digo, idiomas, deve ser formado por profissionais tão preparados quanto homens das cavernas. Os documentos devem ser talhados à pedra, quando não desenhados na parede utilizando-se de tinta feita de sangue de macaco e raízes. A locomoção deve ser feita através de mamutes, já que sempre atrasam vinte dias pra depositar um cheque. A matemática no entanto é avançada: se você tem seis cheques para serem descontados em seis meses, você pode depositar um por mês ou depositar dois de cada vez.

Poupa tempo, poupa mamute. Tem como ser melhor que isso?

Na quarta-feira, 2, ciente de que ainda não haviam descontado nada e que havia contas a pagar, depositei R$ 250 reais em minha conta. Vou dizer que “não é muito, mas é o necessário” pra você não pensar que eu sou um pobre fodido que junta moedas dos trocos das calças dos seus tios pra trocar no final do mês. Então, não é muito mas é o necessário pra pagar tais contas. Depositei e fiquei um pouco mais tranquilo. Dinheiro na minha mão é dinheiro gasto com pão-de-queijo e Coca-Cola, pelo menos no banco está protegido.

A questão é que depositaram dois cheques no dia 1° de abril. Claro, só podem estar de sacanagem com a minha cara. Fui Rick Rolled na vida real. Quando fui tirar um extrato, esperando um trocadinho sobrando pra comprar um jornaleco pela manhã, descobri não só que haviam feito tal cagada em minha conta como me fizeram ficar DEVENDO.

Vamos às contas. Eu não tinha nada no banco no dia 1°, me tiram 250. Meu cheque especial cobre 210, então os outros 40 são cobrados em forma de TARIFA DE EXCESSO. Eu nunca entendi porque chamam cheque especial de especial. Tratam isso como se fosse uma coisa boa. Porra, tu usa o tal do cheque especial só quando fica extremamente na merda. Eu nunca usei e quando preciso fico devendo 40 conto?

Engraçado que minha queria avó me emprestou 20 malandros pra emergências. Comi pão de queijo e Coca-Cola no curso, olha que beleza. Com direito a reação em cadeia: um imbecil derruba uma garrafa de água, que bate na lata de Scrwherpeps, que vira praticamente em cima de mim, que tento desviar, tombo a cadeira e me safo de uma queda no meio do pátio da faculdade através de um sopro divino, que entortou a perna de plástico da cadeira o suficiente pra manter minha dignidade. Seria divertido cair e todo mundo rir da minha cara. Eu me divertiria mais que eles, com certeza.

Porque minha filosofia no momento é essa: uma vez na merda, não tem graça sair dela sem chafurdar um pouco.

***

Se eu interpretar isso como má sorte, é só mais uma posição a mais na minha playlist. Eu nunca participei de promoções por algo que pode se considerar uma mistura de desânimo com descrença.

É, de fato, difícil encanar meu lado racional quando este me impede de tomar decisões do tipo “vou comprar este número de rifa”. Ou de qualquer tipo de promoção, sorteio, leilão ou venda de escravos depois da má sorte que me acometeu quando ainda era um gordinho roliço e rosado.

Ainda na segunda série, no auge dos meus oito anos, a professora fez uma rifa de um objeto de valor inestimável: um pano de prato bordado. Como se fosse o velo de ouro das histórias que eu não lembro o nome, eu estendi meu braço curtinho a uma velocidade supersônica - testemunhas dizem que atingi Mach-2 naquele momento. Sabe-se lá porquê, mas eu comprei a rifa daquele… pano de prato branco. Eu realmente não lembro nenhum motivo, simplesmente aconteceu.

Fato é que eu competia com apenas mais uma pessoa na rifa. Afinal de contas, quem PAGA 2 malandros pra CONCORRER a um PANO DE PRATO? Quando se tem oito anos, na minha época, 2 reais era dinheiro suficiente pra proporcionar os maiores prazeres aos quais uma criança tem acesso. Elma Chips e chicletes underground com tazo, bolinhas de gude ou linha de pipa de quatrocentas jardas estavam nesta faixa de preço e a alegria que você tinha em escolher seu alvo dependia da modinha da rua.

Não sei quem falhou miseravelmente: Eduardo, o outro concorrente, que levou o prêmio máximo e fez a alegria de sua mãe; ou eu, que não ganhei absolutamente nada.

Hoje eu sei que grandes merda ele ter ganhado o pano de prato, aliás todo pano de prato é viado mesmo.

Categorias: Anos incríveis, Indignação inútil
Apr-1-2008

Sem palavras

Há alguns anos conheci uma menina linda. Foi como se estivesse andando por entre centenas de metros de um maçante gramado infinito e trombasse com o Himalaia. A sensação também era parecida. Eu, óbviamente, não esperava.

Ingênua, dona de um sorriso atraente e um corpo delirante. Vivemos então uma pequena grande história de amor contada entre longos e pequenos capítulos. Um livro de capa transparente, recheado de contrastes entre brincadeiras e amor, infantilidades e sexo.

Eu a amei mais que a mim mesmo. Esqueci meus valores, esqueci minhas crenças. Esqueci de mim. A vida que vivia era a vida dela, a vida que ela queria que eu tivesse.

Hoje descubro que ela era apenas mais uma qualquer, uma comum.

Hoje procuro me descobrir novamente.

Categorias: Imbecil
Mar-24-2008

Sobre dentistas, dinossauros e góticos bebedores de sangue

Desde a primavera da raça humana, o homem vem buscando formas de proporcionar o maior desprazer possível ao semelhante. Seja na forma de carros de som alto, vizinhança barraqueira ou apenas sendo inconveniente, seus semelhantes sempre vão lhe abençoar com a pior forma de moléstia possível quando acham necessário.

Em época de guerra costuma-se enfiar a cabeça do prisioneiro em água gelada. Nas favelas do Rio de Janeiro, policiais mostram o saco. Na China, costumava-se amarrar os membros de uma pessoa a uma mesa. Uma vez imobilizada, cordas eram amarradas em seus pés e um jarro de água gelada colocado sobre sua cabeça. Enquanto gotas caíam incessantemente em sua testa, seus membros inferiores eram esticados pelas cordas. Fora a dor, os pingos d’água constantes davam uma sensação de desespero às vítimas, que entravam em pânico.

Mas pra quê tanta criatividade quando a pior moléstia do ser humano é uma profissão regulamentada e que ganha bem pra caralho pra rir da sua cara?

Cientistas da Nova Guiné chegaram à conclusão de que os dentistas são os seres mais assustadores que já andaram livres pela face da Terra desde a época dos dinossauros.


Ele faz esse sorrisão porque não conheceu a Dra. Juliana.

Entendo que deve ser uma profissão difícil, assim como qualquer outra da área da saúde. Os urologistas, por exemplo, trabalham pra pegar em pirocas alheias. Acho que uns 70% dos ginecologistas escolhem esse ramo pensando em sacanagem e se arrependem depois que descobrem que as coisas não caminham lá muito por esse lado, quando a dona Lourdes resolve fazer sua consulta semestral.

É preciso ser meio sádico e abdicar um pouco do seu lado humano para ser um bom dentista. Agonia, dor e sofrimento alheios perdem o significado quando você tem na mão objetos cortanes, barulhentos e amedrontadores como aquele bisturi maroto que corta concreto, aquelas garrinhas que arranham adamantium e a maldita broca. Ah, a broca.

Eu me submeti a uma experiência de quase morte nesta manhã. Esperava encontrar uma cirurgia difícil mas tranqüila, graças à eficiência e confiança dos sedativos e a anestesia, uma dupla que sempre foi boazinha comigo. Todos falam que o dente do siso é o “dente do juízo”. A verdade é que hoje eu quase perdi os dois, tanto o dente quanto o juízo.

A dra. Juliana não é das mais tranqüilas do universo. Ela parece com aquele coelho maluco do país das maravilhas, que sempre corre contra o relógio. Às vezes eu penso que ela fica brincando de time trial, cronometrando o tempo gasto numa obturação. Sempre tive dentistas mulheres, apenas um homem, e sempre fui um cliente exemplar. Nem quando criança reclamava de dor, e olha que fiz CINCO OPERAÇÕES DE CANAL até os 12 anos. Não enche meu saco, eu não sabia usar o fio dental ó.

Mal pisei no consultório e a doutora me pede pra entrar e sentar, enquanto preparava a anestesia e a assistente fazia alguma coisa que não era muito importante. Aquelas cadeiras de dentista podem parecer confortáveis, mas colaboram tanto quanto uma daquelas mesas de tortura chinesa que citei no início do post.

- Posso ficar o tempo todo de olhos fechados, certo?
- Pode sim.

A anestesia fazia efeito e a dentista dizia o que eu poderia ou não fazer após a cirurgia. Confesso que pra mim foram cinco minutos de “mimimi mimimi mimimi”. Não lembro o que ela fez primeiro, na verdade lembro de pouca coisa tamanho foi o trauma. FALANDO SÉRIO: me sinto mal ao lembrar do que aconteceu naquele consultório. Fico lembrando das coisas e tal mas SOU PROFISSIONAL ó.

Meu dente do siso mal aparecia, não tinha nascido ainda. Se você olhasse bem pro canto dele e tivesse a cabeça aberta a novas experiências, iria imaginar que aquela bolinha branca embaixo do último dente era um dente e ele estava dizendo “estou dibowa aqui, pego só as sobras de comida, não corta meu barato não plz”. A extração seria difícil e eu tinha noção disso, mas não sabia que seria tão aterrorizante.

Foi então que ela me apresenta uma nova ferramenta típica dos dentistas. Algo como um prendedor de cabelos que tinha a função de pé-de-cabra. Vamos chamá-lo por esse nome, que basicamente explica o que ele faz.

O dente não queria sair. Ele tava bem no lugar dele, não tava me dando problema algum e eu não tava me sentindo muito bem com a idéia de ter um filho assim, tão novo. Ela enfiava o pé de cabra e puxava numa força absurda, enquanto urrava pra eu não mover a cabeça.

- Agora não mexe a cabeça. Isso, queixo lá em baixo.
- AHAM - eu dizia, sem movimentar um músculo. Eles devem ter aulas de interpretação na faculdade.
- Se doer, você levanta o braço e a gente pára. Mas não vai doer, tá anestesiado.

O pé-de-cabra continuava sua ação arrasadora. A doutora não fazia conta do tamanho do esforço que era manter a cabeça imóvel e o queixo encostado no peito enquanto um pedaço de metal está tentando arrancar sua alma de dentro de você. O cabo da ferramenta pegava no canto da boca, causando uma dor aguda horrível. Imagine uma faca de pão arrastando sua serra pelo canto dos seus lábios e você terá idéia do estupro a qual fui submetido.

Ela alternava o uso do pé-de-cabra com a broca, talvez abrindo espaço entre o dente do fundo e o siso. A broca libera uma água de sabor horrível e pra não movimentar a cabeça, o ideal era a assistente usar a mangueirinha de sucção pra justamente sugar essa água. A assistente poderia ser substituída por uma carranca, daquelas de madeira e que assustam pra caralho as criancinhas, que ninguém iria sentir sua falta. Como quem não ajuda atrapalha, ela esbarrava a mangueira na broca, fazendo a dentista obturar minha gengiva da mesma forma que uma britadeira perfura um pote de manteiga.

Minha reação foi u “AH AHRHALHO”, seguida de um braço direito erguido violentamente em direção aos céus e foi aí que eu entendi que dentistas não sabem interpretar porra nenhuma e nada seria capaz de pará-la naquele momento. Certamente se eu fosse capaz de fitar os olhos da doutora, ela estaria com eles bem arregalados e as pupilas dilatadas, mostrando um prazer imenso na quantidade absurda de sangue que tinha sido liberada.


- “Que maravilha, descobri petróleo”, pensou a doutora.

O clima começava a ficar tenso à medida que ela fazia os movimentos mais bruscos do universo e eu não mantinha a cabeça parada. Se um mecânico enfiasse uma chave de fenda embaixo do seu dente e aplicasse uma força capaz de deslocar a Terra de sua órbita, e seu pescoço fosse feito de uma liga indestrutível, talvez você conseguisse tal proeza. Eu não conseguia, e ela mostrava sinais de que estava tão nervosa quanto eu com a dificuldade da cirurgia.

Eu nunca vi uma dentista naquele estado. Chegou um ponto que ela começava a falar coisas sem sentido como “nem criança dá esse trabalho” e coisas assim. Não sei quais crianças ela andou tratanto, mas eu quero comer o que elas comem pra agüentar tal tortura.

Então ele nasceu. Um meninão, grandão, saudável. Ela quis me mostrar mas eu não sou uma boa mãe e quis distância do meu filho recém-nascido. Darei-lhe o nome de Afonso, se eu um dia me encontrar com minha prole novamente. Espero que ele não queria ter irmãozinhos.

O resultado de tudo isso é que me sinto menstruado. Desde as 10 horas da manhã o local não pára de sangrar, mesmo com os medicamentos, gelo e até os pedaços de pano que ela pediu que eu enfiasse na boca e mordesse. Nada funciona. Esta noite vou dar uma volta pelos cemitérios da cidade buscando alguma vampira gostosa ou góticos querendo beber sangue em crânios humanos. Deve existir alguma utilidade para os vinte litros de sangue que deixei correr ralo abaixo. Sabe como é, não pode rolar desperdício.

Pra falar a verdade, tudo não passa de desculpa pra faltar do trabalho e passar o dia todo comendo sorvete.

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