Para não dizerem que não atualizo o blog nunca, vou relatar uma das experiências mais freak da minha vida.
Se tem uma coisa que os filmes da Sessão da Tarde me ensinaram é que quando o pai de sua namorada viaja e deixa uma área de lazer à sua disposição, é hora de fazer a festa. Sabe aqueles filmes de ação - ou comédia, como queira - que acontecem várias merdas, mas no final sempre sobra uma mensagem boa? Então, esse post é parecido com eles.

Cara, esse filme é bom.
Com a chave nas mãos e montados no bravo e corajoso transporte para todas as horas, uma Biz, partimos em nossa jornada rumo à felicidade, uma felicidade com direito a sol e piscina, coisa que não vejo a menos de cinco metros a no mínimo uns cinco anos.
O caminho era acidentado. Buracos, asfalto ruim, vista desagradável, pessoas estranhas e principalmente minhas pernas desnudas ao vento cobertas por apenas uma bermuda, vestimenta que costuma freqüentar meu corpo apenas em ocasiões especiais e de puro prazer: dormindo. A expectativa subia, embora minha permanência na área estivesse fadada a apenas poucos minutos. “Como será?”, “Será que a piscina é grande?” e “Será que vou ser assaltado?” eram os pensamentos provenientes da parte racional de meu cérebro. A parte irracional respondia com “Hummm peitos”.
Era de meu conhecimento de que a casa do sogro ficava no meio da Alvorada, e o lugar onde ele guarda seus carros obrigatoriamente devia ficar próximo à sua casa. Ou seja, estaríamos nadando e nos refrescando ao sabor dos raios cancerígenos do sol, rodeados do tipo de gente que eu adoro: vizinhas encrenqueiras, ladrões de bicicleta e meninas de 9 anos que vão te quebrar essa sua cara aí.
Chegando ao local, tive uma decepção parecida com a daqueles povos que saíram do Egito em direção à terra prometida. Minha terra prometida parecia mais com a porta de um açougue do que uma área de lazer cheirando a cerveja, piscina e protetor solar. As portas teriam de ser abertas para desafogar meu anseio.
Era um sinal. Paula dizia que era difícil de abrir a porta, tinha vários truquezinhos necessários pra conseguir sequer virar a chave. Um deles era ficar chutando a alça da porta, que já se encontrava quase solta da porta de tantas porradas. Então, uma volta. A porta continuava fechada, parecia que estávamos virando a chave para o lado errado. Era um sinal, tenho certeza de que era um sinal.
Segunda volta. A porta abre e Paula a sobe até a metade. Lembro que em minha mente passou a seguinte mensagem: “A coitava vai abrir a porta sozinha? Vou ajudar” - e empurrei a porta mais um pouco pra cima - mas continuo achando que não foi o suficiente pra ela subir tanto. “A chave!!!!111″ gritou Paula, enquanto eu fazia um esforço tremendo para enganar meu cérebro, forçando-o a pensar que por estar olhando a chave por um ângulo não muito favorável, ela pareceria torta por perspectiva.
Mas o cérebro, amigo, é um cara muito esperto.

Eu não sei o que colocar nesta legenda.
A chave estava torta. E uma vez torta, ela vai quebrar com o mais sutil dos movimentos. Parte da chave agora se encontrava dentro da fechadura, enquanto a outra repousava em minha mão. Incrédulos, começamos a pensar no que fazer então. Aliás, eu começava a pensar no que fazer, enquanto Paula tentava de todas as maneiras dizer que eu era culpado.
Não posso botar a culpa nos mortos por terem feito o dia de hoje um feriado. Aliás, coisas assim só acontecem no feriado: seu computador quebra, seu carro quebra, sua casa pega fogo, seu braço se descola do corpo, você quebra a chave da área de lazer que agora você descobriu se tratar do estacionamento do seu sogro… coisas assim.
Onde iríamos achar um chaveiro, uma profissão tão nobre e rara, num feriado de FINADOS?
Eis que surge um senhor, vizinho da área, do qual não lembro um nome. Vamos chamá-lo de Tião.
- Snarsmdaosuehot aí?
- Oi?
- Vocês tão com problema aí?
- É, a chave quebrou, agora tá tudo aberto aqui.
- ASDLqowe iurqwe uuhuhhu smqçlehrçoqwe ali.
- Desculpa?
- Tem um chaveiro logo ali na esquina.
- Sério?!
- Na esquina de baixo, virandaljsdp1p93u jqwejqhoiwioej ijwhuuhasldk mão dupla, aí cê pega a direita e assojwoe1h oipqwebygasoiugpjaisd
- Ahhh tá, vou procurar - diz Paula, tomando iniciativa! Honra seu sutiã, mulher!
- Ok, vai lá que eu fico aqui de plantão - diz Raphael, tomando iniciativa! Honra seu sutiã, homem!
E lá foi Paula. Ficamos eu e Tião trocando papos e sorrisos. Embora vestisse uma camiseta do Palmeiras, ele ainda era sociável. Com poucos minutos de conversa, percebi que Tião é o típico cara de bom coração, que não precisa de dinheiro pra viver feliz. Tião ainda me dera uma carona em sua Brasília. Gostaria de ter visto minha cara ao ter de andar segurando a porta, enquanto Tião dizia que era a primeira vez em uns 3 ou 4 anos que ele levava gente no banco da frente. Se eu não estivesse ali, um cabo de vassoura seguraria a trava, não deixando a porta abrir - ou cair, sei lá.
Durante as quase 3 horas que fiquei esperando uma solução, pensei sobre muita coisa. A Alvorada está para Sertãozinho assim como a Zona Leste está para São Paulo e qualquer favela está para o Capitão Nascimento. Estava lá eu, sozinho, cuidando dos pertences de meu sogro, sem telefone, comida ou sequer água, no meio do bairro mais casca-grossa da cidade. Resident Evil à parte, fiz um pequeno contato com os nativos.
A imagem que todos que não freqüentam este bairro é de um lugar cheio de malandrinho, pivetinho roubando boné, tênis, relógio, celular. Eu, inclusive, tinha essa mentalidade. Nos primeiros minutos, fiquei com o cu na mão de algum marginalzinho passar e querer arrumar encrenca. No início, todos eram suspeitos, a ponto de eu esconder celular, capacete e boné dentro da área e abaixar a porta, ficando apenas com meus chinelos que hoje não valem muita coisa.
Reparei que a população de bicicletas na Alvorada está pau-a-pau com a população humana do lugar. A renda do bairro deve ser reconhecida pelo número de bicicletas presentes na casa. Quando não são bicicletas, são motos. A paixão pelas duas rodas ali fala mais alto que o dinheiro.
Lá encontrei meninas em trajes curtos. Quase sempre pouco vestidas, deixando corpos não muito atraentes de fora. Eu juro que vi uma mocinha - no cano da bicicleta do namorado, chamando-o de cachorro - com um mamilo de fora, graças à alça da pequena blusinha caída à altura do cotovelo.
Porém parece que me deixaram em paz. Mesmo sendo o tipo do cara que mano nenhum gosta - loiro, branquinho, olho verde, vestimenta - ninguém mexeu comigo em momento algum. De fato alguns dos caras que passavam pelo local eram mal encarados, mas nenhum deles chegou a tretar comigo, sequer dar aquelas olhadas que te fazem pensar “Fodeu”.
Eis que Diógenes e Paula finalmente chegam, portando a chave da terra prometida. Finalmente conseguiram achar um chaveiro, que fez uma cópia até melhor que a antiga - essa nova pelo menos girava na fechadura sem travar, em suaves movimentos. O sofrimento havia acabado. Eu já estava fazendo planos de ter que dormir no local, já que no sábado era mais fácil contatar um chaveiro para nos socorrer.
A chave girou, duas voltas. Trancamos a porta e viemos embora, talvez para nunca mais voltar. Fico imaginando o que o pai dela faria se descobrisse que eu quebrei a chave da garagem dele.
Se no dia em que fomos apresentados um ao outro ele me fez limpar a caminhonete do varejão dele, o que seria capaz de fazer agora?
:amd:
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