Sobre dentistas, dinossauros e góticos bebedores de sangue
Desde a primavera da raça humana, o homem vem buscando formas de proporcionar o maior desprazer possível ao semelhante. Seja na forma de carros de som alto, vizinhança barraqueira ou apenas sendo inconveniente, seus semelhantes sempre vão lhe abençoar com a pior forma de moléstia possível quando acham necessário.
Em época de guerra costuma-se enfiar a cabeça do prisioneiro em água gelada. Nas favelas do Rio de Janeiro, policiais mostram o saco. Na China, costumava-se amarrar os membros de uma pessoa a uma mesa. Uma vez imobilizada, cordas eram amarradas em seus pés e um jarro de água gelada colocado sobre sua cabeça. Enquanto gotas caíam incessantemente em sua testa, seus membros inferiores eram esticados pelas cordas. Fora a dor, os pingos d’água constantes davam uma sensação de desespero às vítimas, que entravam em pânico.
Mas pra quê tanta criatividade quando a pior moléstia do ser humano é uma profissão regulamentada e que ganha bem pra caralho pra rir da sua cara?
Cientistas da Nova Guiné chegaram à conclusão de que os dentistas são os seres mais assustadores que já andaram livres pela face da Terra desde a época dos dinossauros.

Ele faz esse sorrisão porque não conheceu a Dra. Juliana.
Entendo que deve ser uma profissão difícil, assim como qualquer outra da área da saúde. Os urologistas, por exemplo, trabalham pra pegar em pirocas alheias. Acho que uns 70% dos ginecologistas escolhem esse ramo pensando em sacanagem e se arrependem depois que descobrem que as coisas não caminham lá muito por esse lado, quando a dona Lourdes resolve fazer sua consulta semestral.
É preciso ser meio sádico e abdicar um pouco do seu lado humano para ser um bom dentista. Agonia, dor e sofrimento alheios perdem o significado quando você tem na mão objetos cortanes, barulhentos e amedrontadores como aquele bisturi maroto que corta concreto, aquelas garrinhas que arranham adamantium e a maldita broca. Ah, a broca.
Eu me submeti a uma experiência de quase morte nesta manhã. Esperava encontrar uma cirurgia difícil mas tranqüila, graças à eficiência e confiança dos sedativos e a anestesia, uma dupla que sempre foi boazinha comigo. Todos falam que o dente do siso é o “dente do juízo”. A verdade é que hoje eu quase perdi os dois, tanto o dente quanto o juízo.
A dra. Juliana não é das mais tranqüilas do universo. Ela parece com aquele coelho maluco do país das maravilhas, que sempre corre contra o relógio. Às vezes eu penso que ela fica brincando de time trial, cronometrando o tempo gasto numa obturação. Sempre tive dentistas mulheres, apenas um homem, e sempre fui um cliente exemplar. Nem quando criança reclamava de dor, e olha que fiz CINCO OPERAÇÕES DE CANAL até os 12 anos. Não enche meu saco, eu não sabia usar o fio dental ó.
Mal pisei no consultório e a doutora me pede pra entrar e sentar, enquanto preparava a anestesia e a assistente fazia alguma coisa que não era muito importante. Aquelas cadeiras de dentista podem parecer confortáveis, mas colaboram tanto quanto uma daquelas mesas de tortura chinesa que citei no início do post.
- Posso ficar o tempo todo de olhos fechados, certo?
- Pode sim.
A anestesia fazia efeito e a dentista dizia o que eu poderia ou não fazer após a cirurgia. Confesso que pra mim foram cinco minutos de “mimimi mimimi mimimi”. Não lembro o que ela fez primeiro, na verdade lembro de pouca coisa tamanho foi o trauma. FALANDO SÉRIO: me sinto mal ao lembrar do que aconteceu naquele consultório. Fico lembrando das coisas e tal mas SOU PROFISSIONAL ó.
Meu dente do siso mal aparecia, não tinha nascido ainda. Se você olhasse bem pro canto dele e tivesse a cabeça aberta a novas experiências, iria imaginar que aquela bolinha branca embaixo do último dente era um dente e ele estava dizendo “estou dibowa aqui, pego só as sobras de comida, não corta meu barato não plz”. A extração seria difícil e eu tinha noção disso, mas não sabia que seria tão aterrorizante.
Foi então que ela me apresenta uma nova ferramenta típica dos dentistas. Algo como um prendedor de cabelos que tinha a função de pé-de-cabra. Vamos chamá-lo por esse nome, que basicamente explica o que ele faz.
O dente não queria sair. Ele tava bem no lugar dele, não tava me dando problema algum e eu não tava me sentindo muito bem com a idéia de ter um filho assim, tão novo. Ela enfiava o pé de cabra e puxava numa força absurda, enquanto urrava pra eu não mover a cabeça.
- Agora não mexe a cabeça. Isso, queixo lá em baixo.
- AHAM - eu dizia, sem movimentar um músculo. Eles devem ter aulas de interpretação na faculdade.
- Se doer, você levanta o braço e a gente pára. Mas não vai doer, tá anestesiado.
O pé-de-cabra continuava sua ação arrasadora. A doutora não fazia conta do tamanho do esforço que era manter a cabeça imóvel e o queixo encostado no peito enquanto um pedaço de metal está tentando arrancar sua alma de dentro de você. O cabo da ferramenta pegava no canto da boca, causando uma dor aguda horrível. Imagine uma faca de pão arrastando sua serra pelo canto dos seus lábios e você terá idéia do estupro a qual fui submetido.
Ela alternava o uso do pé-de-cabra com a broca, talvez abrindo espaço entre o dente do fundo e o siso. A broca libera uma água de sabor horrível e pra não movimentar a cabeça, o ideal era a assistente usar a mangueirinha de sucção pra justamente sugar essa água. A assistente poderia ser substituída por uma carranca, daquelas de madeira e que assustam pra caralho as criancinhas, que ninguém iria sentir sua falta. Como quem não ajuda atrapalha, ela esbarrava a mangueira na broca, fazendo a dentista obturar minha gengiva da mesma forma que uma britadeira perfura um pote de manteiga.
Minha reação foi u “AH AHRHALHO”, seguida de um braço direito erguido violentamente em direção aos céus e foi aí que eu entendi que dentistas não sabem interpretar porra nenhuma e nada seria capaz de pará-la naquele momento. Certamente se eu fosse capaz de fitar os olhos da doutora, ela estaria com eles bem arregalados e as pupilas dilatadas, mostrando um prazer imenso na quantidade absurda de sangue que tinha sido liberada.

- “Que maravilha, descobri petróleo”, pensou a doutora.
O clima começava a ficar tenso à medida que ela fazia os movimentos mais bruscos do universo e eu não mantinha a cabeça parada. Se um mecânico enfiasse uma chave de fenda embaixo do seu dente e aplicasse uma força capaz de deslocar a Terra de sua órbita, e seu pescoço fosse feito de uma liga indestrutível, talvez você conseguisse tal proeza. Eu não conseguia, e ela mostrava sinais de que estava tão nervosa quanto eu com a dificuldade da cirurgia.
Eu nunca vi uma dentista naquele estado. Chegou um ponto que ela começava a falar coisas sem sentido como “nem criança dá esse trabalho” e coisas assim. Não sei quais crianças ela andou tratanto, mas eu quero comer o que elas comem pra agüentar tal tortura.
Então ele nasceu. Um meninão, grandão, saudável. Ela quis me mostrar mas eu não sou uma boa mãe e quis distância do meu filho recém-nascido. Darei-lhe o nome de Afonso, se eu um dia me encontrar com minha prole novamente. Espero que ele não queria ter irmãozinhos.
O resultado de tudo isso é que me sinto menstruado. Desde as 10 horas da manhã o local não pára de sangrar, mesmo com os medicamentos, gelo e até os pedaços de pano que ela pediu que eu enfiasse na boca e mordesse. Nada funciona. Esta noite vou dar uma volta pelos cemitérios da cidade buscando alguma vampira gostosa ou góticos querendo beber sangue em crânios humanos. Deve existir alguma utilidade para os vinte litros de sangue que deixei correr ralo abaixo. Sabe como é, não pode rolar desperdício.
Pra falar a verdade, tudo não passa de desculpa pra faltar do trabalho e passar o dia todo comendo sorvete.
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