Archive for the ‘Anos incríveis’ Category

Apr-5-2008

Encontro do conhecimento com a oportunidade

Que o mundo tá cheio de coisas ruins, todo mundo sabe. Coisas ruins pra caralho. Tem gente jogando criança da janela. Eu acho que jogar crianças deve ser mais divertido que jogar ovos, conforme dito aqui eras atrás. Deve ser tão legal quanto arremessar um gato do vigésimo sétimo andar.

Pessoas assim são presas, pagam por seus pecados. Mais do que justo. Pessoas boas vão sofrendo com os infortúnios do infame acaso. Eu me considero uma pessoa boa. Nunca joguei criança de janela.

Eu, por exemplo, estou passando por uma maré de azar infinita. É como se Deus inundasse toda a superfície do planeta com gasolina. Dá pra nadar, até. Então Deus, que é um cara maroto, risca um palito de fósforo divino e o arremessa em direção ao oceano inflamável no exato momento que eu alcanço terra firme.

Como se não bastasse as moléstias das últimas semanas - virose, o dente do siso, o pé na bunda - acontecem pequenas catástrofes que fazem tudo piorar. Não vou negar que estou numa fase emo e passando por dias seguidos de fossa profunda. Eu sei que não combina e tal, aliás minha vida pessoal não é das mais interessantes, mas é verdade. Tem dias que não dá vontade de sair da cama - embora eu tenha a consciência de que ocupar a cabeça é necessário. É como eu sempre digo: cabeça vazia é o Photoshop do diabo.

Um pequeno probleminha aconteceu com o curso de inglês da minha irmã. Algo que eu nunca pretendia ter dor de cabeça, mas acabou se transformando num beliscão no mamilo que me perturba todo mês, depois do dia 20. O problema é que eu passei seis cheques pré-datados - nem sei pra que são, provavelmente parcelas da matrícula - para todo dia 10 de cada mês.

O setor financeiro dessa escola de idiotas, digo, idiomas, deve ser formado por profissionais tão preparados quanto homens das cavernas. Os documentos devem ser talhados à pedra, quando não desenhados na parede utilizando-se de tinta feita de sangue de macaco e raízes. A locomoção deve ser feita através de mamutes, já que sempre atrasam vinte dias pra depositar um cheque. A matemática no entanto é avançada: se você tem seis cheques para serem descontados em seis meses, você pode depositar um por mês ou depositar dois de cada vez.

Poupa tempo, poupa mamute. Tem como ser melhor que isso?

Na quarta-feira, 2, ciente de que ainda não haviam descontado nada e que havia contas a pagar, depositei R$ 250 reais em minha conta. Vou dizer que “não é muito, mas é o necessário” pra você não pensar que eu sou um pobre fodido que junta moedas dos trocos das calças dos seus tios pra trocar no final do mês. Então, não é muito mas é o necessário pra pagar tais contas. Depositei e fiquei um pouco mais tranquilo. Dinheiro na minha mão é dinheiro gasto com pão-de-queijo e Coca-Cola, pelo menos no banco está protegido.

A questão é que depositaram dois cheques no dia 1° de abril. Claro, só podem estar de sacanagem com a minha cara. Fui Rick Rolled na vida real. Quando fui tirar um extrato, esperando um trocadinho sobrando pra comprar um jornaleco pela manhã, descobri não só que haviam feito tal cagada em minha conta como me fizeram ficar DEVENDO.

Vamos às contas. Eu não tinha nada no banco no dia 1°, me tiram 250. Meu cheque especial cobre 210, então os outros 40 são cobrados em forma de TARIFA DE EXCESSO. Eu nunca entendi porque chamam cheque especial de especial. Tratam isso como se fosse uma coisa boa. Porra, tu usa o tal do cheque especial só quando fica extremamente na merda. Eu nunca usei e quando preciso fico devendo 40 conto?

Engraçado que minha queria avó me emprestou 20 malandros pra emergências. Comi pão de queijo e Coca-Cola no curso, olha que beleza. Com direito a reação em cadeia: um imbecil derruba uma garrafa de água, que bate na lata de Scrwherpeps, que vira praticamente em cima de mim, que tento desviar, tombo a cadeira e me safo de uma queda no meio do pátio da faculdade através de um sopro divino, que entortou a perna de plástico da cadeira o suficiente pra manter minha dignidade. Seria divertido cair e todo mundo rir da minha cara. Eu me divertiria mais que eles, com certeza.

Porque minha filosofia no momento é essa: uma vez na merda, não tem graça sair dela sem chafurdar um pouco.

***

Se eu interpretar isso como má sorte, é só mais uma posição a mais na minha playlist. Eu nunca participei de promoções por algo que pode se considerar uma mistura de desânimo com descrença.

É, de fato, difícil encanar meu lado racional quando este me impede de tomar decisões do tipo “vou comprar este número de rifa”. Ou de qualquer tipo de promoção, sorteio, leilão ou venda de escravos depois da má sorte que me acometeu quando ainda era um gordinho roliço e rosado.

Ainda na segunda série, no auge dos meus oito anos, a professora fez uma rifa de um objeto de valor inestimável: um pano de prato bordado. Como se fosse o velo de ouro das histórias que eu não lembro o nome, eu estendi meu braço curtinho a uma velocidade supersônica - testemunhas dizem que atingi Mach-2 naquele momento. Sabe-se lá porquê, mas eu comprei a rifa daquele… pano de prato branco. Eu realmente não lembro nenhum motivo, simplesmente aconteceu.

Fato é que eu competia com apenas mais uma pessoa na rifa. Afinal de contas, quem PAGA 2 malandros pra CONCORRER a um PANO DE PRATO? Quando se tem oito anos, na minha época, 2 reais era dinheiro suficiente pra proporcionar os maiores prazeres aos quais uma criança tem acesso. Elma Chips e chicletes underground com tazo, bolinhas de gude ou linha de pipa de quatrocentas jardas estavam nesta faixa de preço e a alegria que você tinha em escolher seu alvo dependia da modinha da rua.

Não sei quem falhou miseravelmente: Eduardo, o outro concorrente, que levou o prêmio máximo e fez a alegria de sua mãe; ou eu, que não ganhei absolutamente nada.

Hoje eu sei que grandes merda ele ter ganhado o pano de prato, aliás todo pano de prato é viado mesmo.

Categorias: Anos incríveis, Indignação inútil
Mar-10-2008

Anos Incríveis: A Caixinha de Surpresas

Eu tenho três paixões que me fazem acordar todos os dias na esperança de não me jogar na frente de um trem em movimento. Eu poderia citar aqui “famílias, amigos e Godzilla”, mas pareceria simples demais e não haveria como sugar a sua atenção para o restante do post.

Enquanto não estou vendo Godzilla pela décima oitava vez ou observando as mulheres deste planeta, eu provavelmente estou apreciando uma boa partida de futebol. Grande parte destas partidas têm valor nutricional cultural próximo a zero, se você aplicar uma escala que vai de 0, caracterizado por uma partida válida pelo campeonato húngaro de futebol a 14, relativo a uma maratona de filmes alternativos do cinema iraniano.

Dentro de campo, eu posso dizer com toda a certeza do mundo que fui dos piores. Sempre tentei praticar um bom futebol e sempre falhei miseravelmente em todas as tentativas. Minha incursão no esporte bretão aconteceu ao mesmo tempo em que eu largava a mamadeira - o que me faz pensar que, se o futebol me fez largar da mamadeira, estaria mamando até hoje caso vivesse no Suriname.

Depois de anos de sofrimento ao ser sempre o último escolhido nas pelejas escolares, tomei a atitude mais correta da minha vida: era hora de experimentar novos ares e aprender com quem sabe ensinar. Passei então a freqüentar a gloriosa Escolinha de Futebol da Quadra do Zico. O Zico, no caso, era o dono da Quadra, grande metalúrgico, que nas horas vagas fritava salsichas empanadas com solda quente e coliformes fecais.

A Escolinha do Zico era a mais gloriosa escolinha a meu alcance. Jamais iria atravessar meia cidade duas vezes por semana para correr atrás de uma bola dura e pesada por duas horas semanais. O conforto da quadra suja e desgastada do Zico era o suficiente para aprimorar meu futebol-arte adormecido. O que me ajudou a ter me conformado com tal escolha é que Rocky, aquele boxeador que aparece às vezes no Corujão, se tornou o melhor de todos socando pedaços de carne congelada.

Meus amigos me chamavam de Caixinha de Surpresas por dois motivos. O primeiro é que eu utilizava minhas técnicas ninja, nas devidas proporções de um garoto roliço e rosado de 8 anos, para aparecer do nada e não fazer merda nenhuma. O segundo é que eu tinha espasmos de craque, assim como Gohan se tornava o guerreiro mais forte quando não estava enchendo o nosso saco.


Gohan tem uma espada, no entanto a Deusa Atena proibiu os Cavaleiros de usarem armas brancas.

Carlinhos, o treinador, tinha o melhor emprego do mundo: ensinar a criançada a jogar futebol. Isso, convenhamos, no Brasil se torna uma tarefa tão complicada quando ensinar um cachorro a latir ou um gato a miar. Dar uma bola para doze moleques correrem atrás como se fossem zumbis atrás de um pedaço de carne fresca enrolado com bacon e cenouras no seu interior. Zumbis não comem cenouras, aliás nem eu como cenoura, mas a gente também não comia a bola.

Entretanto minha passagem pela gloriosa Quadra do Zico foi curta. Em no máximo três meses, fiz pouco mais do que treinos físicos, táticos e jogatinas desenfreadas do mais belo futebol de salão. O treino físico era simples: alongamentos que eu não conseguia fazer, abdominais que eu não conseguia fazer, flexões que eu não agüentava repetir mais que duas vezes e corridas ao redor da quadra que eu abandonava no final da primeira volta. Acredite: a distância entre a ponta do seu braço e o seu dedão do pé pode se tornar muito grande quando se tem oito anos e o máximo de atividade física que você praticara até então era correr até a casa do seu amigo dizendo que havia zerado Super Mario World.

O treino tático se resumia a duas coisas: apontar e atirar. Se Carlos nos desse canhões e pólvora negra ao invés de bolas coloridas de borracha para acertarmos o gol, quase sempre protegido por Igor, o Índio, teríamos nos tornado pessoas melhores. Creio que durante o pouco tempo que participei dos treinos, a programação mudara somente uma vez. Certa vez tivemos a árdua missão de driblar um ou dois cone e, claro, chutar a gol. Creio que os canhoneiros não tinham que driblar cones antes de atirar nos navios inimigos.

O resto dos treinos era praticamente “bota uma bola no meio da quadra que eles saem chutando”. Minha melhor posição era perto do gol. Do meu gol. Ali eu adquiria alguns bônus de território e me tornava um jogador mediano. Incansável na medida do possível, fazia poucas faltas e não me metia a fazer jogadas de efeito - mesmo porque não era capaz de fazer nada mais plástico do que acertar a parte menos nobre daquele objeto redondo que fica rolando com o bico reforçado de minha chuteira Topper.


Em tempos onde acham o Valdivia craque, eu é que queria apanhar pra me chamarem de craque.

Disputei apenas um jogo “oficial”. Na verdade era um amistoso contra uma escolinha que existia há pouco tempo, chamada Society. O jogo seria no campo deles, e era na categoria Mirim. Não me lembro a média de idade dessa categoria, mas se eu tava no meio era pra ser entre 9 e 10 anos, por aí ó. Jogaríamos no campo adversário e contra a torcida, formada por pais e alunos frustrados por não terem conseguido vaga no time.

Quando Carlinhos me escalou como titular, me senti uma estrela do Rock. Tanto que vesti meu calção ao contrário e fui para a quadra, sem me tocar. Já dentro de campo, fazendo aquecimento, reparei que algo estava errado e corri com a graça de uma gralha depenada até o vestiário, para corrigir a primeira falha do jogo - aliás a única minha.

Depois de tudo acertado do nosso lado, a equipe adversária finalmente chega. Imagine você reunir todo o jardim de infância de um colégio particular, crianças lindas, fofas e rosadas para enfrentar doze cavaleiros medievais com armaduras e armas pontudas do mais duro ferro. Foi exatamente assim que nós nos sentimos. Haviam escalado o time juvenil - leia-se brutamontes que naquela altura já haviam cultivado pêlos pubianos, privilégio que nossa idade não permitia. Tínham quase o dobro de nossa altura, o que prejudicaria bastante a legendária tática do chuveirinho, que consiste em chutar a bola em direção à área e torcer para que ela bata na nuca de um atacante desatento e ultrapasse a linha das traves.

Tive uma atuação apagada, talvez graças à grande - em todos os sentidos - marcação que recebi. Inclusive, um dos titãs encarregados de evitar que eu produzisse alguma coisa me acertou com o golpe mais terrível que todos os planos dimensionais existentes na física quântica somados são incapazes de medir a imensidão da dor: a PAULISTINHA. Imagine um elefante enfiando sua enorme presa de marfim por entre os músculos de sua panturrilha e multiplique isso pelo número de átomos de hidrogênio presentes no universo. Taí, eu desafiei a física quântica e dei a exatidão da dor causada por uma paulistinha bem aplicada.

Aliás se você simulasse um jogo de Tetris usando a quadra e os jogadores, nosso time seria a pecinha falsificada de um quadradinho, enquanto os adversários eram blocos de oito por oito, então dá pra imaginar o tamanho da brincadeira. O mais engraçado era que eles jogavam com uma raça descomunal, como se suas almas tivessem sido penduradas no chaveiro de seu técnico, que era ninguém menos que o próprio Belzebu.


Eu fiquei com o cu na mão no final do filme :\

Igor, o índio, que estava apenas como espectador naquele jogo, foi convocado por Carlinhos, o treinador, para reforçar o time. Igor era um pouco mais velho e mais parrudinho que todos nós e provavelmente havia sido benzido pelo pajé de sua tribo poucas horas antes, pois fez uma partida espetacular. Certo que perdemos aquele jogo por doze tentos a zero, mas jogando praticamente sozinho, o nosso papa-capim evitou um vexame ainda maior.

Não que doze a zero tenha sido um resultado digno, mas se eu fosse a uma guerra com seis homens desarmados e enfrentasse uma legião de samurais e voltasse vivo, teria ficado orgulhoso. Quem sabe uma medalha?

Medalha é sempre bom.

Categorias: Anos incríveis, Deixa que eu deixo