Archive for the ‘Diarinho Gay Homossexual’ Category

Jun-12-2008

Uma história de muitos títulos - Parte IV

Dia 2 - O retorno

Nada de muito interessante aqui. A subida foi pouco mais emocionante do que a descida, uma vez que enfrentamos um trânsito até pesado no decorrer da rodovia. Uma personagem até divertida foi uma Suzuki Boulevard que nos acompanhou durante praticamente todo o trajeto.

A Boulevard está para a nossa Intruder assim como o Charizard está para o Charmander - mais tamanho, mais potência e muito mais crocância. Aquele visual arrogante, enorme, cheio de bolsas laterais e um barulho estranhamente agradável. Dava uma pequena invejinha, admito. Mais potente, ela se mostrava toda graciosa nas retas ou nos momentos que o trânsito dava aquela aliviada. Chegava a abrir uma boa distância de nós até encontrar um novo engarrafamento. Então, como tem praticamente a mesma largura de um carro, desacelerava.

Nós, sobre nossa jovial e leve Intruder, costurávamos os carros com a graciosidade de uma jovem bailarina. Graças às manobras de Wagner, o intrépido motorista que faz as vezes de meu pai, era nossa vez de abrir vantagem sobre a ignorante Boulevard.

E ficava nisso. Só faltava passarmos sobre pontos de interrogação amarelos no chão, acionar a roleta e jogarmos cascos de tartaruga uns nos outros, porque aquilo tava virando meio Mario Kart, meio Cybercops.

De volta a São Paulo, nada como os subempregos que só a capital paulista pode oferecer. Durante todo o caminho até nossa casa, encontrei pessoas - mulheres, a grande maioria - obrigadas a passar o dia todo no sol, segurando pedaços de cano com panos de anúncios pendurados. Alguns eram estampados com nomes de postos de gasolinas ou mercados. Alguns eram brancos. Brancos.

BRANCOS!

Porra, o que leva o setor de marketing de um lugar a contratar pessoas a segurar um cano enorme com um pedaço de lençol pendurado, em pleno domingo, debaixo de um sol putaqueopariumente quente?!

- Aê gente, nova campanha de marketing!!
- Isssoooo
- Vamos colocar pessoas nas ruas pra atrair mais fregueses!!
- Fazendo OQ
- Vão segurar canos enormes com lençóis pendurados!
- Mas isso vai atrair clientes comooo?
- Vão ser… GOSTOSAS!!
- AEEEEEE
- Vamos arrasarrrrr galeraaaaa
- Ebaaa!!!


HHAHAHASDLKAHSDÇLKASÇDLASDF

Parafraseando nosso amigo poeta contemporâneo MC Créu, “pra evoluir no trânsito paulistano tem que ter disposição, pra evoluir no trânsito paulistano tem que ter habilidade”. Nas primeiras investidas você repara que seu joelho passa a uma distância cabulosamente pequena dos carros, seu ombro quase bate na traseira dos mais altos. Mas algumas coisas são como sexo com mamutes: você tem que relaxar, fechar os olhos e confiar no parceiro.

A linguagem dos motoboys é de aprendizado fácil e rápido. Mão esquerda espalmada, virada para baixo, significa “espere, estou pensando em uma manobra sensacional”. Uma breve buzinada significa “Muito obrigado, amigo motorista, por deixar eu ultrapassá-lo de maneira perigosa!”. Já mão esquerda balançando, fazendo o sinal universal do ‘chega mais’, significa algo como “vou te deixar passar porque o senhor está com a piroca mais aflita que eu, portanto estou correndo sério risco de ser atropelado pelo vosso automóvel”.

Quando Deus criou o mundo em HTML, ele deve ter colocado um comentário lá no final do script: “Todo motociclista SEMPRE estará errado em caso de acidente, embora SEMPRE declare estar certo”. Motoboy PEDE pra ser atropelado, não é brincadeira. Quando você tá na garupa de um deles, olha aquela brecha minúscula entre os carros, daquelas que não passa nem uma família de tatus-bola, e percebe que seu motorista já está se arriscando, a primeira reação que se tem é olhar para os céus, abrir os braços e pedir a extrema unção. Claro que meio segundo depois você cola os braços de volta no corpo senão eles seriam arrancados pela traseira do Gol prata que tá sendo ultrapassado.

Fora o trânsito delicioso, São Paulo também fascina por seus pontos turísticos.

O novo xodó dos paulistanos é a Ponte Estaiada, que liga o final da Avenida Roberto Marinho com a Marginal Pinheiros, pra dar aquela desafogada que o trânsito desnecessita.

A Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira está para São Paulo assim como a Torre Eiffel está para Paris. Os paulistanos a idolatram, tiram fotos dela em todas as posições, em dias de chuva, calor, neve, tempestades de areia e furacões, muito comuns nesta época do ano.

Pra quem está acostumado a atravessar córregos em pontes feitas de madeira sobre carros de boi, é uma experiência única. Mas depois de algum tempo você se toca que é apenas uma estrada que passa em cima da outra com um porre de cabo amarelo dos lados. Se você passar a ver as coisas “monumentais” da vida por esse lado, você vai perceber que a vida é algo bem maçante.

Outro ponto turístico reconhecido internacionalmente é a antiga sede da companhia aérea TAM, recentemente destruída por ataques terroristas.


Costumava ser isso.

Sabe aquelas situações inacreditáveis que acontecem, mas são tão extraordinárias que contando não têm a menor graça? Então, esta é uma delas.

Estava eu observando o terreno, que agora é cercado por uma longa e atraente cerca azul, quando meu pai me chama a atenção:

- Nessa cerca azul ficava o antigo prédio da TAM, aquele do acidente, do avião e tal.

Assim que me dou conta, olho para o lado e vejo exatamente a mesma imagem do aeroporto que via pela TV: um barranco com grama. Lembro que foi exatamente ali que o avião caiu e tudo mais, e penso:

- Porra, podia passar um avião agora.

Meus desejos então são atendidos: um avião decola, passando tão perto de mim que se eu estivesse com os braços erguidos, teria as mãos amputadas pela hélice do aeroplano. Mentira, avião o avião não tinha hélices e passou alto pra caralho. Mas ao menos deu pra ouvir o som, o que era inédito pra mim até então. Quando me toco de que tal avião é da mesma companhia que havia jogado um outro avião contra a própria sede, mais conhecida como TAM, minha vontade foi descer da moto e ajudar a empurrá-la, na esperança de nos tirar da linha de fogo o mais rápido possível.

Alguns minutos depois, estávamos em casa. Tive um almoço sensacional, coisa de pai e filho: marmitex e salada. Talvez o primeiro almoço pai e filho que tive na vida, espero que não seja o último. Mas a falta do que fazer me derrubava e eu tinha um ônibus pra pegar em 4 horas.

Antes do embarque, o último causo que a capital paulista me proporcionou foi talvez o que mais me satisfez. A mesma garota que havia me tirado do assento na viagem de ida pegaria o ônibus anterior ao meu, então nos encontramos na plataforma de embarque. O ônibus já estava atrasado e ainda tinha gente pra entrar. Ela então acendeu um cigarro e começou a falar no telefone. Todos haviam entrado, o motorista estava esperando só ela, e o cigarro ainda pela metade.

O motorista falou educadamente com ela, mas ela não deu muita atenção. Continuou fumando. Perdendo a paciência depois da terceira tentativa frustrada, o motorista fez algo MUITO, mas MUITO badmanner: entrou no ônibus, ligou os motores e… FECHOU A PORTA! A guria jogou o cigarro LONGE e bateu na porta pra entrar, gritando. O motô então riu da cara dela e abriu a porta. Se eles são treinados pra fazer isso, esse cara era o primeiro da turma.

A viagem de volta foi mais tranquila do que esperava, quando acordei estava em casa.

Bom, a história [DA VIAGEM] termina aqui. Espero ter passado pelo menos uma parte das boas “emoções” que vivi, e peço desculpas pela demora entre os posts. Espero profundamente que experiências assim se repitam por muitas e muitas vezes, afinal a recompensa é sempre muito, muito grande.

[Edit]

Não galera sahdlçkafasdf não terminei com a Laura não, ainda terão muitas viagens hahdlkasf inclusive tô com uma programada pro fim do mês. SÓ QUE SEM POST DESSA VEZ, quero ter um pouco de privacidade com a minha calanga heh .

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Jun-6-2008

Uma história de muitos títulos - Parte III

Vocês vão me matar

Tarde do dia 01

Desembarcar em São Paulo, sozinho, é como ser atingido na face por um boxeador peso pesado com luvas de concreto. O Terminal Rodoviário do Tietê é praticamente uma cidade, com uma densidade demográfica tão grande quanto, algo em torno de 2 pessoas por metro quadrado. Essa quantidade abismal de pessoas torna o Terminal algo parecido com um estouro de boiada: fique parado e você é soterrado pela massa.

A impressão que dá é que, alguns metros à frente, alguém de alguma forma acaba de plantar uma bomba nuclear e toda a multidão está correndo com medo da explosão. Se você parar de correr, não importa em qual sentido esteja correndo, nem se for pra amarrar os sapatos, alguém te bate.

- O QUÊ? VOCÊ TÁ PARADO MEU?
- Não cara, tranquilo, tô aqui só amarrando o sapato e…
- MAS MEU, VOCÊ NÃO TÁ ENTENDENNNDO. VOCÊ TEM QUE ANDAR NÉ MEU.

- Mas…
- ANDANDO MEU PUTAQUEOPARIU ANDANDO PUTA MUNDO INJUSTO NÉ MEU

Como andar sozinho nesse lugar é algo que eu nunca vou conseguir na vida, meu pai então se juntou a mim. Para garantir minha viagem tranquila, fui direto para comprar minha passagem de volta, daí minha surpresa. Um ônibus lotado de São Paulo para Sertãozinho não é a coisa lá muito comum de acontecer. Apenas cinco assentos estavam vagos, todos no corredor, o que significava que minha viagem de volta seria MUITO, MUITO pior que a de ida. Comprada a passagem, eu me lembro de um fato curioso.

- Que dia é hoje?
- 24
- … amanhã é 25.

- Sério? Não brinca.
- OH MEU DEUS, AMANHÃ É A PARADA GAY

O sentimento de surpresa só não era maior do que o de apreensão. Não sou homofóbico, mas imagina a quantidade de gente estranha que estaria naquela mesma rodoviária no domingo? Não só um domingo comum, mas um domingo volta de feriado. Aquela cidade inteira estaria um caos.

Logo em seguida, saímos da rodoviária em direção ao estacionamento. A impressão que fica marcada em quem não é de São Paulo e pisa na saída do terminal é que estamos em Bogotá. Todas as pessoas estão interessadas na sua bagagem, todas querem te sequestrar. Mesmo você SABENDO que lá dentro só tem roupas velhas e amassadas e um pacote de bolacha Trakinas, precisa estar atento como se tivesse carregando vinte quilos de ouro maciço na mochila e um diamante do tamanho de uma cabeça de recém nascido na mala.

Passada a tensão, chegamos à motocicleta. Uma Suzuki Intruder 125cc nos levaria de São Paulo até Santos, uma descida de, aproximadamente, 100km. Segundo Wagner, meu pai e motorista, a descida é tranquila e a estrada, um tapete. Ok, estou confiante.

Atravessando a cidade para chegar até a rodovia Imigrantes, Wagner apontava os pontos “turísticos” de São Paulo: o museu do Ipiranga, uma ponte estranha que os ônibus usam pra cortar caminho e, claro, a 25 de Março.

É assustadora a quantidade de pessoas que invade a 25 de Março atrás de preços baixos e mercadorias de qualidade duvidosa. Sério. Se você nunca chegou perto daquilo, imagina um estacionamento improvisado de uns 200 metros que invadia a pista, pessoas passando com toneladas de bugigangas e sacolas maiores que eles mesmos, correndo para todos os lados como se eles mesmos estivessem correndo do rapa na polícia.

Então entramos na Imigrantes. Justamente como meu sábio pai havia dito, a estrada é um tapete. Mesmo assim, uma viagem de aproximadamente uma hora em cima de uma moto leve é bastante desconfortável. Eu ainda estava na garupa, apoiado no bagageiro, portanto com um conforto pouco maior do que Wagner, o intrépido motorista que levava a moto no braço.

Uma 125cc não foi projetada para grandes viagens. Nossa Intruder merece uma estátua em praça pública, suas façanhas são respeitáveis. Meu pai pode ser considerado gordo, um gordinho simpático por sinal, mas não vê problema algum em viajar 450km da capital até nossa cidade, viagem essa completada em pouco menos de cinco horas. Mas carregar duas pessoas já é uma tarefa que ela considera meio árdua. Sobre ela, 150 quilos de família mais bagagem, se torna meio difícil acelerar muito. Tente você correr mais rápido que um Fusca carregando uma vez e meia seu peso.

O velocímetro só conseguia passar dos noventa quilômetros horários nas poucas vezes que encontrávamos descidas. Já o contador de giros ficava perto da perigosa marca vermelha durante a maior parte do tempo. Enquanto isso, todos os veículos da rodovia passavam por nós. Absolutamente todos. Não contei nenhum automóvel sendo ultrapassado em rodovia aberta. Éramos obrigados a ocupar a faixa lenta da pista, mais à direita, reservada para os caminhões. Se algum deles tivesse carregando ELEFANTES e um deles resolvesse despejar seu bolo fecal na pista, seríamos soterrados por um quarto de tonelada de merda. Tenso.

Então chegam os túneis, estávamos descendo a serra, enfim. É fácil se perder dentro do túnel, mesmo que seja uma linha reta de oito quilômetros ligando ponto A e ponto B. São tantas paisagens iguais, era como um metrônomo; alguém estabeleceu um padrão e o seguiu durante toda a extensão do bagulho.

lâmpada faixa lâmpada lâmpada faixa ventilação lâmpada

É difícil ter alguma noção de distância lá dentro. Eu mesmo não via túneis há mais de três anos, já que no interior costumamos ser atrapalhados não por montanhas, mas por criações de gado que atravessam a cidade todos os dias. É só sair gritando e balançar um galho de goiabeira que eles saem do caminho, é coisa linda de se ver.

Se eu fosse claustrofóbico, sairia correndo em círculos se me encontrasse na situação que estava. Me sentia como uma minhoca. Não podia fazer nada a não ser esperar até que a luz do fim do túnel finalmente chegasse, literalmente. Chegou, e eu tive uma das visões mais ESPETACULARES da minha vida.

Eram apenas morros, árvores e o mar bem ao fundo. Mas a combinação dos três, junto da idéia de viajar tanto por um objetivo tão nobre, embora certas pessoas achassem que era nada senão pura loucura, fez de tudo aquilo uma cena que jamais esquecerei, e me fez lembrar de Into the Wild.

Uma coisa engraçada foi perceber que todo aquele vale imenso que tinha entre nosso morro e o morro vizinho teria sido obra de um rio imensamente, cabulosamente grande. Se minhas dimensões mentais estiverem corretas, entre os dois haviam um três ou quatro quilômetros, ou seja, longe pra caralho. Então, nos aproximando de uma curva PERIGOSAMENTE estreita, inclino meu corpo pra direção errada, em direção ao rio, pra avistar o tal rio.

Que rio? Aquilo era quase um córrego daqueles que passa no meio das favelas, levando o esgoto a céu aberto. Se tivesse mais de dois metros de largura, eu sou um macaco. Aí dei valor ao que minha professora de Geografia sempre disse: a erosão é a força mais poderosa da Natureza. E quase levei nós dois de cima da moto para conhecer o rio lá embaixo, tudo isso para dizer:

- Foda.

Chegando em Santos, nos topamos com um problema. Os quarteirões tortos, as ruas superlotadas e com sentidos estranhos atrapalhavam cada vez mais. Quanto mais próximos estavámos da casa dela, mais difícil se tornava chegar até lá. Ou o mapa do Google indicava que sua rua tinha o sentido contrário do que realmente era, ou alguma força eletromagnética forte o suficiente inverteu o sentido da rua sem avisar ao Google, o que eu acho difícil.

Então avistamos uma casa igualzinha à foto que Laura havia me mandado um dia antes. Na frente, um senhor aparando as folhas da fachada, coberta por uma cerca viva. Pensei “Caralho, o pai dela tá lá na frente, ah meu deus, o que eu faço, o que eu faço”. Liguei para Laura e pedi para ela me encontrar na esquina, ela me diz que eu estava bastante errado.

Desço da moto e consigo ficar parado pela primeira vez depois de sete horas de viagem. Era pouco mais de meio dia e eu avisto uma menina sorridente vindo ao longe. Me arrumei, joguei toda a bagagem no chão, capacete, tudo, e dei aquela balançada sexy no cabelo.

Ao ver Laura se aproximando, um sentimento estranho tomava conta de mim. Eu parecia conhecer aquela garota há anos, nunca tinha visto ela pessoalmente e reconheci ela a quase cem metros de distância. Era uma soma de surpresa, aflição e ansiedade.

Sinceramente, não lembro quais foram as palavras que Laura me disse no instante que atravessou a rua e me abraçou. Foi o melhor abraço que já tive.

O resto do dia não cabe a vocês saber. :D


Mais fotos aqui

Fim da parte III,
parte IV e final no fim de semana, o primeiro que cobrar leva pirocada de pau mole

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May-31-2008

Uma história de muitos títulos - Parte II

É como a Bíblia, cortada em pedacinhos:

Madrugada do Dia 01

O ônibus saía às 5:30 da madrugada. Se você morou a vida toda na cidade grande, esse horário é basicamente a hora do dia em que todos os galos começam a cantar insandecidamente em intervalos de 4 em 4 segundos. Não que aqui convivamos com galináceos nas ruas, mas não é tão raro ouvir o som destes simpáticos animais cacarejantes durante a noite. É um horário incômodo, já que não é cedo suficiente pra se falar “Bom dia!” nem noite suficiente pra falar “Boa noite!”. Por si só, já é mais um empecilho na hora de cumprimentar o simpático rapaz que vendia as passagens.

Para meu corpo, o momento que antecede viagens longas é um martírio sem tamanho. A ansiedade se torna muito maior do que a vontede de roer unhas, dedos e todas as outras partes do corpo humano que permitem tal ato de desespero. Tudo se torna um desafio fisiológico: uma incontinência urinária me abate em 90% dos momentos antes de entrar em um ônibus, talvez por trauma do incômodo banheiro oferecido pelas empresas masoquistas de viação - se é que aquilo pode ser considerado um banheiro: um cubículo de um metro quadrado, com uma pseudo-privada sem água.

Os perigos de se ter uma privada sem água são muitos. Tudo bem, a maioria das pessoas é inteligente o suficiente pra fazer seu esfíncter se comportar graciosamente durante uma viagem rodoviária de quatro horas, principalmente quando outras 40 pessoas estão no mesmo transporte. Agora se, de repente, alguém come aquele espetinho de carne de capivara da barraquinha do carismático Seu Jorge antes do embarque e resolve ter uma disenteria? A porra do “banheiro” não tem sequer água pra aliviar o cheiro, se os órgãos de alguém resolverem DERRETER lá dentro, lá irão ficar até que a corajosa Dona Neusa usasse seu esfregão divino em tamanha porcaria. Santa Dona Neusa.

Dizem que conhecemos mais a superfície da Lua do que o fundo do mar. Eu digo que conhecemos mais sobre o resto do Universo e sobre a própria existência humana do que conhecemos os banheiros de rodoviária. Cada um é uma cultura diferente, um clima todo especial e único. Cada porta é uma surpresa, nunca se sabe o que você vai encontrar atrás daquele pedaço de madeira em decomposição que tampa as privadas, lugares intocados mas tão violados quanto a mais velha mulher da vida de beira de rodovia. Algo comum é utilizar a porta do banheiro como uma espécie de “Mural de recados” onde você, depois de dar aquela aliviada, pode deixar um recado para o próximo companheiro que adentrar as dependências da mesma cabine.

Muitas vezes estes ambientes se mostram lugares onde pessoas demonstram a falta de afeto na sociedade: as portas de banheiro, pelo menos a grande maioria que já frequentei, sempre carregam em si endereços eletrônicos para outras pessoas entrarem em contato.

“Procuro amigo para contar sobre minhas experiências, entre em contato garoto_solitario_2007@hotmail.com”.

“Caminhoneiro safado afim, estou sempre neste posto às quintas-feiras, das 18 às 21h”

Mas não só de coisas divertidas vivemos. Viagem também é tensão, é desespero, é coisa ruim.

Uma das coisas que mais me irrita em ônibus e outros tipos de transporte coletivo é, ironicamente, o fato dele ser coletivo. A coletividade do transporte significa que ele é pra muita gente, logo as chances de se ter pessoas inconvenientes aumenta. E eu sinto cheiro de gente assim. É como se um inimigo tivesse vindo lá de longe e você sentisse o cosmo dessas pessoas queimando perto de mim.

E momentos antes de adentrar o ônibus, eu senti esse cosmo. Estava entrando sozinho em uma viagem de cinco horas em direção ao desconhecido, não havia como haver problema maior, certo? Errado. Uma família GRANDE, cheia de tudo que eu sempre gosto de ver: malas, sacolas e CRIANÇAS. MUITAS CRIANÇAS. É de conceito geral que crianças e ônibus se dão tão bem quanto um peixe e uma bicicleta de dezoito marchas. Eu sabia que não ia ficar tudo bem, sabia que ia ser uma longa viagem.

Não começamos bem. Paguei pela poltrona número 21, na janela. Quando adentro o ônibus, vou conferindo as poltronas e logo avisto a minha. Encontro então uma das crianças que avistara antes ocupando meu lugar de direito. Tudo bem, até que dei a sorte de pegar a poltrona 19: o único lugar de todo o ônibus que não tinha janela dividida. O único problema era a poltrona da frente, ocupada por uma mulher bastante folgada, que reclinou completamente a sua poltrona e praticamente imobilizou minhas pernas - mas se arrependeu, logo eu estava livre.

O caminho até a próxima parada era curto, coisa de vinte minutos. Durante todos os vinte minutos, a pessoa do banco de trás manteve o celular ligado tocando músicas horríveis - funk carioca, na sua maioria. Eu duvidava que existisse invenção mais infeliz que tuning de som de carro, até sentir na pele - e nos ouvidos - os males causados pela função de viva-voz dos celulares. Durante a parada, o motorista pediu educadamente para que todos os celulares fossem mantidos na função vibratória. Também na parada entram mais pessoas no ônibus, agora ultrapassávamos a incrível marca da primeira dezena de pessoas a bordo.

Eu estava distraído, talvez a muitos quilômetros dali. Uma jovem moçoila de cabelos encaracolados me pede desculpas. Não entendi o porquê, peguei a blusa que havia caído no chão e voltei minhas atenções para a janela. Ela colocava o violão no compartimento acima da minha poltrona. Pensei “bom, acho que tenho companhia, deixa eu dar uma arrumada e tirar esses óculos de SOL PORQUE AFINAL SÃO CINCO HORAS DA MANHÔ.

- Desculpa, mas eu comprei a janela e tal…

Tudo começava a vir abaixo. Tudo bem, ela tinha toda a razão, mas ao me levantar me dei conta de que TODAS as janelas estavam ocupadas! Onde raios eu iria sentar agora? Levantei-me e saí à procura de uma poltrona vazia. A família infernal estava em linha, duas fileiras de poltronas exclusivamente destinadas a ela. E logo atrás de uma delas havia uma poltrona livre. O pior lugar do ônibus estava reservado para mim. Então comecei a acreditar em destino.

Os primeiros dez quilômetros foram tranquilos. Havia conversa mas era totalmente ignorada pela considerável e nunca antes tão agradável potência dos meus fones de ouvido. Tudo ia muito bem até que acontece o esperado: um dos bebês começa a chorar. Se eu apostasse comigo mesmo que isso iria acontecer, teria ganho.

O torque vocal daquele guri era inacreditável. Se a energia liberada naquela choradeira toda fosse canalizada, iluminaria uma cidade de pequeno porte por alguns meses! Era tão estridente que eu jurava que sentia as lentes do meu óculos em ressonância, tão alto que minha mãe me ligou lá de casa perguntando se eu tinha tomado meu leite. Tente imaginar um trio elétrico baiano armado de microfones próximos às caixas de som e você terá algo parecido, porém em menor escala.

Tenho a certeza de que, se um dia eu vir a precisar de um pulmão, já sei onde pedir. O garoto tinha uns catorze pulmões, respirar não era necessário. Não só assobiar e chupar cana, ele também era capaz de CHORAR DESESPERADAMENTE durante o processo. Sua mãe era o típico caso de quem engravida quatro vezes antes do casamento e já não aguenta mais carregar a prole pra todo lado: tentou resolver o problema no good-way, ou seja, porrada. Desceu um tabefe na mão do moleque, deu pena, mas felizmente fez ele engolir o choro. Se soubesse que seria tão fácil, eu mesmo teria jogado minha mala sobre ele.

O combinado era de que eu, assim que tivesse chegando em São Paulo, ligasse para meu pai. Mas como raios eu iria saber onde estava? A não ser que eu perguntasse para o próprio motorista, aumentando exponencialmente as chances de que ele fizesse uma curva errada e nos levasse para a morte certa, eu estava tão bem localizado quanto uma agulha num palheiro - pintado de prata. Como fui bem educado pela televisão, soube exatamente a hora de ligar. É incrível como o acaso sempre responde minhas perguntas.


Favelas: as placas de boas vindas da terra da garoa.

Sabe-se lá porquê, a criança infeliz começa a chorar novamente. Desta vez já havia não só perdido as esperanças de dar uma cochilada durante a viagem, como também meu próprio sono me abandonara e encontrava-se sentado algumas fileiras atrás. A geniosa mãe então, esperta como só ela, acha o remédio definitivo para a criança: um brinquedo.

- Vou dar alguma coisa pra ele brincar.

Nessa hora foi como se eu tivesse colocado meus pés numa fonte termal cheia de água morna e creme para massagem. Enfim, o tão necessário repouso estava próximo. Mesmo que durasse menos de uma hora, tempo suficiente para chegarmos ao final desta odisséia, fechar os olhos no puro silêncio seria regenerador. Mas como eu sempre recebo muito mais do que mereço…

Se eu fosse criança, qualquer tipo de distração me faria calar o bico. Um boneco, um caderno para desenhar, um gibi da Turma da Mônica pra ler, essas coisas acalmam as crianças. Mas não, é pedir demais que uma mãe tão carinhosa desse pra uma criança tão legal um gibi da Mônica. Ela então tira da bolsa um chocalho de plástico.

O barulho produzido pelo chocalho era infinitamente mais desgraçado que seu choro. Não contente em ficar balançando aquela ferramenta do satanás pelo ar, ele descobriu que a janela produzia um barulho muito maior e mais divertido. Dentro da cabeça do pirralho, ele tinha acabado de roubar o fogo dos deuses. Na minha, ele usou o fogo pra incendiar a humanidade.

A única foto da peste que consegui, com ela já tranquilizada por alguma dose cavalar de Prozac, foi capturada com meu celular para eu não passar a imagem de pedófilo perseguidor de criancinhas.


Sinto calafrios só de olhar para essa criatura.

Na chegada, tive que saciar minha curiosidade. Eu tinha que levar comigo algo que me fizesse lembrar desta encarnação da balbúrdia e anarquia. Uma mecha de cabelo era difícil, então tomei a liberdade de perguntar à mãe o nome de sua amada cria.

Finalmente, São Paulo. Uma cidade grande, apaixonante e detestável. Mais aventuras no próximo post. O nome dele?

Raphael.

Fim da parte II

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May-28-2008

Uma história de muitos títulos - Parte I

Dia 0 - Dia de fúria

Na véspera do grande dia da viagem, estava tudo praticamente pronto. Contrariando uma regra pessoal, as malas já estavam arrumadas, mesmo que fosse apenas uma mochila com duas camisetas, roupas de baixo, carregador de celular e um livro, que sequer foi tocado durante toda viagem. A câmera, uma das muitas personagens secundárias desta história, me acompanhava dentro de uma bolsa que se assemelha a uma lancheira, daquelas que você usava na segunda série para levar suco de laranja e salgadinho do Cascão - que era divino, se me permite o comentário.

A sexta-feira é também o dia mais crítico do meu trabalho. Fechamento de edição, pelo menos no consenso geral daqui, também significa “o dia que vocês vão trabalhar até os ossos começarem a se quebrar sozinhos, e os chefes vão arrumar outra coisa mais divertida pra fazer do que dar atenção pra vocês”. Falta de pessoal, de estrutura e, principalmente, de vergonha na cara são apenas algumas das moléstias às quais somos submetidos. Falta de pagamento costuma fazer parte desta lista, mas ele sempre acaba aparecendo na última hora, geralmente uns 5 dias depois que todas as suas contas venceram, mas isso é tão normal que é quase uma tradição.

O problema é quando o pagamento não vem.

A menos de 15 horas do embarque, sendo que nem passagem eu havia comprado ainda, descubro que meu chefe não só está foragido como tenho a certeza de que eu não vou receber um tostão quebrado sequer. Trocando em miúdos, a viagem (pela qual não só eu esperava há meses) estava sumariamente cancelada.

Pra quem conhece o blog há mais tempo, ou pelo menos da época que comecei a escrever diarinhos aqui, meus textos são baseados única e exclusivamente em tentativas desesperadas de transmitir sensações parecidas com as que eu mesmo tenho, para que você leitor não apenas leia o texto, mas faça parte do complexo universo que é meu sistema nervoso.

No momento em que percebi que tudo que eu havia sonhado para aquele dia havia descido ralo abaixo, foi como se um caminhão pipa carregado com corpos de animais em decomposição triturados fosse despejado sobre mim. Imagine então encarar o dia mais difícil da semana, um fechamento de uma edição complicada, soterrado por duas toneladas de patê de bicho morto. Não é a melhor coisa do mundo, muito menos faz bem pra pele.

Alguns cientistas criaram um negócio legal chamado Relógio do Apocalipse que, a cada cagada da humanidade referente à energia nuclear ou coisas do tipo, é adiantado em alguns segundos. Se ele chegar à meia-noite, o mundo acaba. Simples e perfeito. Se eu adotasse um Relógio do Raphs Pegando Suas Coisas e Indo Embora, neste momento ele estaria a treze segundos da meia-noite.

***

Se por um lado a minha chateação era grande, do outro havia Laura. Não que eu não quisesse fazer isso, mas desde o começo eu sabia que eu estava fazendo isso mais por ela do que por mim. Ela parecia querer muito me ver, eu queria muito conhecê-la pessoalmente. Se eu não fosse, estaria quebrando uma promessa e deixando de fazer algo que eu desejava MUITO.

Diferentemente de outros tempos, hoje não tenho vergonha nenhuma em dizer que conheci Laura pela Internet, através do próprio Odeio e Justifico. Realizando uma busca, ela veio parar aqui, me encontrou no orkut e começamos a conversar. Em outras palavras, ela me achou no Google. Conversas vão, os arquivos de registro do MSN iam ficando cada vez maiores até que nos damos conta de que gostávamos de verdade um do outro - daí o grande motivo para que eu viajasse quinhentos quilômetros para conhecer aquela menina.

Mas era uma pessoa da Internet e, assim como várias outras pessoas que tiveram um contato, digamos, um pouco mais próximo de mim através de comunicadores instantâneos, e-mail e outras dessas traquitanas do futuro, estávamos eternamente separados por nossos fios de telefone. Eu sempre achei essa história de namoro virtual, ou e-love, uma babaquice sem tamanho. Até então, pra mim, amar alguém feito de pixels fazia tanto sentido como fazer amor com sua placa de vídeo.

E para os nerds, transar com uma GeForce 9800 GTX deve ser como ter uma noite de amor com uma atriz pornô.


Vai gostosa, renderiza meus gráficos no Ultra High, derrama em mim seus FPS…
Oh, isso, que delícia!
 
Geralmente eu entendia que era possível conhecer alguém na Internet, marcar um encontro e aí sim um namoro, no sentido mais literal e racional, se tornaria real e possível. No nosso caso, me toquei que a coisa ficou realmente séria entre mim e Laura quando me toquei que o que parecia uma conversa um pouco mais séria entre nós se tratava, afinal, de uma discussão de relação.Foi então que descobri que, contrariando tudo que eu sempre acreditei na Internet, eu estava sim apaixonado por uma pessoa que nunca havia visto pessoalmente.E, pela primeira vez, eu sentia falta de um abraço que nunca tive.

***

O final do dia chegava e estava bem chato. Entre outras coisas, eu e Laura mal conversávamos, o que era totalmente compreensível, já que por razões que não eram mais do alcance de nenhum dos dois, a promessa de nos conhecermos estava definitivamente quebrada. Então parece que Deus apontou o seu dedo divino pra mim e disse, com sua voz trovejante e inaudível: “Cara, tu merece…”, pra ser interrompido logo em seguida pela secretária:

- Raphael, vai lá na frente, acho que vão te pagar.

Se eu estava no meio de um túnel escuro e sem fim, o próprio Deus em pessoa abriu um BURACO no meio do túnel pra me dizer: “… então, como eu tava te falando, tu merece, mas só um pouco” pra então ser interrompido novamente por minha chefe.

- Vou te dar só metade, semana que vem te dou o resto.

Era o suficiente pra viajar mas me complicaria com as contas no fim do mês. Não mudaria minha decisão em cima da hora, a menos de 8 horas do embarque. A viagem continuava cancelada.

Laura e eu trocávamos mensagens mas nada além de “estou muito triste”, “fica pra próxima” e “vamos fazer amor na praia do Gonzaga ao entardecer”. Eu estava triste mas ela estava ACABADA, eu até me sentia mal de tentar falar alguma coisa. Então um estalo tão violento quanto uma manada de búfalos raivosos veio à cabeça:

- Laura.
- qq foi
- Tô afim de pegar no teu rosto, deixar bem perto do meu e falar EU TE AMO na tua cara amanhã.

Fim da parte I

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May-24-2008

24 de maio de 2008.

100+

Por Laura.

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May-11-2008

Doença de velho

Cara, antigamente eu fazia um, quiçá dois posts por dia numa porrada só.

Hoje fico três, quatro dias trabalhando em UM post. Tô ficando velho.

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Apr-17-2008

Sobre Landau, balizas e as cabeças de pedra da Ilha de Páscoa.

Para algumas pessoas, o volante é a extensão do seu próprio braço. É como se o X-Buster do Megaman substituísse seu braço esquerdo e, ao tocar no possante, o carro apenas obedecesse a todo e qualquer comando mental do motorista. Dirigir é apenas atividade instintiva, como comer, andar e falar mal de Naruto.A frota brasileira de veículos é de aproximadamente 20 milhões de automóveis, para mais. Perceba mais tarde como esta informação não irá adicionar em nada o conteúdo do texto.

O ato de guiar um automóvel em geral é uma tarefa fácil. Mais fácil ainda para quem não tem medo de levar consigo retrovisores alheios e chocar-se levemente com para-choques de carros mais caros que o seu. E muito mais fácil para quem passa a utilizar o carro para tudo, usando como desculpa coisas pequenas como buscar o pano de prato que sua mãe emprestou pra Dona Lourdes, ou a panela que seu tio Sérgio deixou na casa do Carlão Mecânico quando fez aquela vaca atolada no domingo passado.

Principalmente para quem acaba de tirar sua carteira de motorista.

Mas não pra mim. Não que seja difícil, mas para mim ainda é um desafio. Posso contar as vezes que ocupei o banco do motorista utilizando apenas os dedos das mãos de um personagem de desenhos animados antigos. A falta de experiência fica evidente quando uma manobra de dificuldade média se torna tão trabalhosa quanto salvar a humanidade de um cometa gigante se aproxima a duzentas vezes a velocidade do som.

Por essas e outras que eu queria ser Bruce Willis.

Vou confessar, eu não sei estacionar meu carro. O que aprendemos nas aulas de baliza é simplesmente um adestramento para fazer o necessário na hora do exame, nada além disso. Não aprendemos a estacionar o carro em vagas onde cabem apenas um carrinho de pipocas ou sequer como entrar naquela vaga que surge do nada, quando aquele moço do Passat percebe que esqueceu a filha em cima do caixa do supermercado e libera a vaga do estacionamento só pra você.

O que eles ensinam é como utilizar as marcações dos carros DELES a seu favor na hora do exame, onde você estaciona entre cabos de vassoura pintados de branco com base de plástico.

Hoje botei minhas habilidades ao máximo. Ao pegar o carro sozinho pela terceira vez, fui praticamente obrigado a estacionar o carango no centro da cidade. Não é necessário dizer que estacionar no centro é terrívelmente impossível, com o agravante de ter como destino APENAS um prédio DE FRENTE para a praça central da cidade. É como viajar para o centro da Amazônia, tropeçar num galho de árvore, cair numa tumba gigante, descobrir uma cidade inteira feita de ouro puro e ainda capturar um pokémon no mesmo dia.

Depois de alguns quarteirões desviando de charretes, cavalos e crianças jogando pião no meio da rua, finalmente avisto a praça. Lá está ela, sempre florida e cheia de gente. “Cheia de gente que vai ficar vendo eu estacionar esta merda”, pensava. A dois quarteirões do trabalho, avisto uma vaga enorme para uns quatro ou cinco carros. Era um lago de águas geladas e azuis envolto por uma vegetação do mais vivo verde, onde mulheres nuas banhavam-se. Como todo viajante do deserto que encontra um oasis, rapidamente arranquei minhas roupas e pulei no lago, estacionando perfeitamente o carro na enorme vaga disponível.

Desci do carro feliz e o tranquei, como todas as pessoas normais que possuem um carro sem travas automáticas fazem. O carango estava lá, posicionado perfeitamente. Todo sereno, com uma feição até sorridente por ter sido tratado com carinho mesmo em uma situação tão tensa. Porém, um quarteirão à frente, encontro uma vaga perfeita para meu possante, a poucos passos do trabalho. Foi como o sol saindo por trás das nuvens numa manhã de domingo. Havia ali espaço livre suficiente para dois carros grandes. Ou um Landau, se você tiver passagem pela Marinha. Pilotar aquilo deve ser como manobrar uma caravela no asfalto.


A Mulher Melancia não tem tanta bunda assim depois que você vê um Landau

Como diria aquele ditado chinês, “em time que está ganhando não se mexe”. Eu sinceramente acredito que todas as maiores cagadas da história da humanidade foram feitas justamente quando tudo estava bom e em ordem, quando algum imbecil desocupado achava que poderia melhorar.

Era um desafio. Eu precisava aprender a estacionar na marra. Eu me julgava completamente capaz de estacionar meu pequeno carro naquela simpática vaga.

Então fui. Voltei ao veículo e confesso nunca ter girado a chave no contato com tamanha confiança. Eu era o ás do volante. Eu era o melhor. Eu era o máximo. Aproximei-me da vaga. É agora. Eu sou o máximo. Seta? Que parem o trânsito, eu sou o piloto de fuga aqui. Parem seus carros e observem. Embiquei o carro à minha direita de uma maneira estranha, mas achava que era normal. A gente aprende a fazer parecido na auto-escola. Ao tentar corrigir, meu erro.

O esquema da marcha-ré deveria receber mais atenção nas aulas da auto-escola. Pra falar a verdade, a gente não aprende absolutamente nada das manhas e maciotas que andar de costas exige. É como ver o mundo ao contrário. O carro estava parado numa posição absurdamente torta, com o pneu dianteiro encostado na calçada. Ao tentar corrigir, virei totalmente o volante para a esquerda, tentando fazer o carro inverter o ângulo do carro de maneira que seu traseiro não ficasse virado para a rua.

Como não consigo expressar em palavras a posição tântrica na qual meu lindo Corsa chumbo, vou resumir: não importa o que eu fizesse ou pra onde eu virasse, eu voltava para a mesma posição. Quanto mais eu tentava consertar, mais eu cagava totalmente a manobra. Na segunda ou terceira ida e volta, uma mocinha que trabalha numa sorveteria ao lado do jornal começou a rir de mim. Eu comecei a rir junto, pra não ficar sem graça - embora a graça ali fosse justamente eu.

Sinceramente, eu não sabia o que fazer. Eu poderia continuar tentando por horas e horas, ou até que o pouco combustível habitual se esgotasse, e jamais conseguiria consertar tamanha merda. Sozinho eu não estacionaria ali. Então engoli todo o orgulho de macho alfa e pedi ajuda à pessoa mais próxima: o rapaz da Área Azul.

Esses indivíduos são como parquímetros humanos. Eles ficam o dia todo ‘protegendo’ as ruas do centro da cidade, cobrando R$ 1,30 por cartões que dão direito a estacionamento por duas horas. Como sempre, não perguntei o nome. Vou chamá-lo de Moisés, afinal ele abriria o Mar Vermelho para mim.

Estiquei o braço e fiz o símbolo universal do “Vem cá”, abrindo e fechando a mão direita. Ele estava próximo ao carro, provavelmente rindo por dentro, e se aproximou de vez.

- Sabe aqueles caras que acabam de tirar carta e não sabem dirigir?
- hahasçlhkdf sei sim.
- Então, eu sou um deles.
- Mas pode ficar tranquilo, tem espaço pra tu entrar, tá longe ainda.
- Velho, eu simplesmente não faço a menor idéia do que fazer.
- Hahahahçsdklf então vai que eu te ajudo.

O próprio Deus falou comigo naquele momento através do garoto de roupa azul. Então Moisés, com a maior tranquilidade do mundo, disse duas frases:

- Esterça o volante só um pouquinho pra cá. Isso. Agora vai reto, sem mexer.
- Agora esterça o volante pra lá. Isso, agora vai pra frente. Prontim patrão.


“Esterça o volante pra cá”, disse Moisés.
E o povo de Israel pôde enfim estacionar seus carros tranquilamente.

Ao descer do carro, meio que não acreditei. Eu nunca tinha parado tão perfeitamente reto na minha vida inteira, mesmo quando não havia nenhum carro no resto do quarteirão. Havia uma linha pontilhada que indica o limite no qual o carro deve estar estacionado e não somente eu estava dentro, como estava perfeitamente paralelo a ela.

Percebi então que o ato de estacionar, pelo menos por enquanto, é equivalente a taxiar um avião. Para mim é necessário uma pista inteira e exclusiva.

E eu ainda mato alguém por asfixia por não saber usar as vírgulas.

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Feb-17-2008

Arachnoraphsobia

Se você é daqueles que acredita que não há céu nem inferno, e que quando morrer sua alma vai se vestir com um terno branco e vagar por lindos campos verdes junto com outras alminhas, enquanto cantarolam e fazem rodas de mãos dadas, você é um tanga.

Depois de muitas pesquisas, descobri que demônios existem, e eles não habitam tão somente o inferno. Seu lugar favorito é atrás de móveis e estantes, nos cantos das paredes e em todo lugar que fique imóvel por mais que dois dias - tempo suficiente para estabelecerem o perímetro do seu reino, criar os súditos e capturar comida. Também descobri a melhor forma de exorcisar estes demônios modernos. Agarre-se à vassoura mais próxima e saiba onde vai pisar, porque vamos entrar no ninho das criaturas mais grotescas da face da Terra: Aranhas.


Sou só eu que tenho medo pra caralho dessas malditas aranhas de teto?

Neste momento sou a melhor pessoa para falar sobre tais criaturas, afinal já fui vítima de um destes servos de Belzebu duas vezes.

O ano era 2005. Eu andava dibowa até a casa de minha então namorada, quando passei por uma ponte de aproximadamente dois metros, que cruzava um rio. As margens do rio eram cobertas por pequenas e simpáticas flores amarelas. Acredite, isso é relevante.

Enquanto cruzava a ponte, senti que havia sido “atingido” por um pedaço de teia passando diretamente pela minha jugular. Como qualquer pessoa deste lado da galáxia faria, eu simplesmente arrastei o dedo pelo pescoço - talvez por reflexo ou na tentativa de retirar a teia, não com a intenção de colocá-la no lugar. Segui o longo trajeto de seis passos até o fim da ponte e cheguei à calçada novamente.

Então senti uma pequena dor na mão, seguida de um formigamento. Curiosamente, a picada havia sido exatamente no mesmo lugar que Peter Parker levou sua picada: entre o dedo indicador e o polegar. Imediatamente olhei e lá estava ela. Tenho certeza de que ela havia digo alguma coisa. Se eu fosse capaz de entender o que aquela singela criatura disse, algo me diz que seria:

- HAHDSAÇLKHSDÇKLAF SE FODEU PAU NO CU TE MORDI VO TE MATA FDP

Era uma batalha de Davi contra Golias, só que aqui Davi era uma aranha, tinha quatrocentos e cinquenta olhos, oito pernas e era amarelo, enquanto Golias tinha seiscentas vezes o tamanho de Davi e calçava tênis, 80kg, olhos verdes, cabelos dourados, não fumava e era sensualidade total. Davi não chegou a posar para foto, mas eu encontrei no orkut alguém muito parecido com ele:


O saudoso senhor João Pantone iria se orgulhar desta escala de cores

Davi me fitava com seus novecentos olhos, imóvel. Como um mestre de kung-fu, ou qualquer outra arte marcial milenar ensinada por alguém com olhos puxados, a aranha assumiu uma posição de combate, levantando as duas pernas dianteiras. Tenho certeza que se ela tivesse em mãos um escudo e uma espada, eu seria decapitado.

Como bom homem e ativista dos direitos dos animais, eu fiz a única coisa que achei certo: me balancei todo como uma gazela embebida em gasolina em chamas. Respeitando as leis da física e do respeito pelos mais velhos, a aranha não era forte o suficiente para se segurar e caiu na calçada, na mesma posição. Sua cor era realmente muito bonita, um amarelo forte e vivo que, confesso, me fazia ter mais vontade de pisar em cima. Talvez a sola do meu sapato deixasse marcas.

Ainda em posição de ataque, agora balançando-se para os lados, o inimigo ainda me fitava. Ele era hostil e agressivo, atiçava meu ataque. Dava a impressão de que estava sempre pronto para um contra ataque.

Golias pisou em Davi. De ódio, arrastou seu pé sobre a calçada, não deixando sequer marcas da existência do rei.

A marca que Davi fez em mim lá ficou por dois dias. O formigamento foi breve, mas uma pequena dor continuava. O conhecimento que tinha de aranhas me deixava mais tranqüilo, afinal no Brasil existem apenas três espécies venenosas e todas bem características.

Posso lhes dizer que ser picado por uma aranha é uma experiência fascinante. Claro que rola uma expectativa, nunca se sabe de onde a mensageira de Satã veio ou o que ela tem comido no almoço. Se eu desse sorte e ela tivesse feito um belo café da manhã com urânio enriquecido, a história seria outra.

Na tarde deste domingo, fui atacado novamente. Desta vez, saí ileso graças à grande destreza adquirida com anos de uso do computador.

Enquanto descansava na rede, no quintal de casa, senti o KI de um inimigo se aproximando. Não era o de Vegeta, nem o de Majin Boo. Ela estava na altura do meu cotovelo, preparando um bote delicioso e suculento.

O inimigo desta vez era menor, poucos milímetros talvez. Era mais uma daquelas aranhas de jardim, que andam pulando e são peludinhas. Quem disse que nerds nunca viram aranhas peludas? Ao contrário de sua prima distante amarela, esta era dócil e calma. Estava somente brincando nas curvas avantajadas do meu braço pouco mais grosso que um cabo de vassoura.

Fiquei brincando com a criatura. Ela dava saltitos muito homossexuais, ao invés de se locomover normalmente. Enquanto eu me divertia às custas do pequeno artrópode, notei pela minha visão periférica que ele havia trazido a família inteira para brincar sobre meu corpo: as irmãs Clotilde e Marilda, o tio Alfredo e a dona Célia, amiga da família.

A primeira reação foi de prazer sexual. Nunca havia experimentado a sensação de ter 5 aranhas peludas em cima de mim e talvez morresse sem saber como era. Então me toquei do perigo: elas queriam me devorar vivo e levar grandes pedaços de carne para sacrifícios realizados à luz da lua cheia

Numa reação ninja, afastei-me da rede a uma velocidade de centenas de metros por segundo. Desconfio que naquela hora eu quebrei a barreira do som. Ao procurar novamente, a família aranha não se encontrava mais sobre o meu corpo e eu então pude dar um longo suspiro. Estava salvo e louco por um picolé.

Corri para a geladeira e encontrei um solitário picolé de côco. E eu não gosto de côco.

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Dec-27-2007

Vou contar um segredo.

Não conta pra ninguém, mas vou roubar o teclado do trabalho enquanto tô de férias.

Ele é macio… macio…

Tô de olho nessa caixinha de som também. Será que cabe no bolso? Nããão, bolso não. Talvez embaixo da blusa. É, é uma boa.

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Dec-21-2007

Bohemian Rhapsody

A manhã bate na janela de Guilherme. Ele acorda.

- Ahhh mas que belo dia para NÃO pagar meus funcionários.

Abre uma lata de Bohemia. *Tsssscloc*. Ele toma seu café da manhã. Abre outra lata de Bohemia. *Tsssscloc*.

- Que lindo dia. Os pássaros estão cantando. Vou tomar uma pra comemorar. Abre uma Bohemia. *Tsssscloc*.

Guilherme desce para a Diagramação. Ele está feliz, porém parcialmente bêbado.

- Olá gente, bom dia.
- Gui, a gente tem 56 páginas pra fechar e não tem nada pronto.
- Fica caaalmo, cara. Tem que ter tranquilidade. Não precisa estressar.
- Haha, claro, sem pressão né? Pra quê pressão? - comenta Raphael, com uma certa ironia.
- Não cara, você tá na pressão! Você tem que estar na pressão! Você não pode ficar sem pressão, você é a panela de pressão! Você tá dentro de uma panela de pressão!
- Hummmmm ok

Então Guilherme se dirige à sua casa novamente. Não antes de deixar uma lata de Bohemia vazia sobre a mesa de Raphael, que encara a lata. Guilherme abre mais uma lata de Bohemia. *Tsssscloc*

Guilherme está feliz, então ele abre uma Bohemia. *Tsssscloc*

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