Gerações de cientistas do sul da Malásia passaram os últimos quinhentos anos trabalhando na pesquisa definitiva sobre qual a maior desgraça já caída sobre a humanidade em toda a história como a conhecemos. A fase final da pesquisa, onde a resposta derradeira seria enfim descoberta, foi efetuada por macacos treinados que apontavam os objetos que mais odiavam.
Alguns apontaram para fotos de vítimas do ebola, outros indicavam fileiras de DVDs de filmes musicais da Disney, outros ainda para mangás de Naruto. Os cientistas ficaram perplexos, a experiência tinha logrado resultados diversificados por demais.
Um estagiário, então, retirou os fones de ouvido e se tocou que todas as amostras foram todas colocadas exatamente em frente a uma central de atendimento da Teleborbs. Os macacos não estavam apontando para os objetos.
Para você leitor que não conhece a pior operadora de telefonia fixa do Universo, vamos dissertar um pouco sobre ela. A Teleborbs é uma companhia de telefonia que atua apenas no Estado de São Paulo, este estado maravilhoso e desenvolvido. Entre seus principais produtos, temos os maravilhosos planos de linhas fixas com tarifas-fantasmas, grande atrativo da companhia.
Afinal, não há nada mais agradável do que acordar pela manhã e ver um serviço que você NÃO REQUISITOU custando QUARENTA RONALDOS na sua conta telefônica, concorda? Aposto que sim!
A Teleborbs, inclusive, é tri-campeã na gloriosa e disputadíssima categoria “Reclamações”, do Procon.
Para aumentar o tenebroso currículo da Teleborbs, temos ainda o maravilhoso serviço de banda larga! O Rapidy talvez seja o serviço mais “liberal” do Brasil, sem frescuras de traffic-shaping nem problemas com firewalls e roteadores. O negócio é até razoável - QUANDO FUNCIONA! Essa merda de banda larga simplesmente não consegue se manter funcionando por três dias seguidos sem apresentar um problema sequer!
Querem uma prova? Este parágrafo está sendo escrito exatamente às 00:15 da sexta-feira, dia 27/03. Sem qualquer tipo de aviso prévio ou comunicado, o Rapidy regular e pontualmente às 01:00 da manhã da sexta-feira deixa de funcionar, talvez para algum tipo de manutenção. Sou assinante do Rapidy há mais de quatro anos e NUNCA fui informado sobre tal manutenção periódica, simplesmente sei de tanto que apanhei dela. Toda sexta-feira é a mesma história: da 1h até as 13h, a Internet não dá sinal algum de vida. Os atendentes… bom, vamos começar a falar dos atendentes.
Sabe quando alguma coisa é tão inacreditável que você simplesmente não encontra palavras suficientes para descrevê-la? O atendimento “personalizado” da Teleborbs é algo tão devastador que nos causa essa sensação.
Não é de hoje que travo minhas batalhas épicas com telemarketing. Assim como o Super Homem, o telemarketing e qualquer tipo de atendimento telefônico é minha criptonita. Embora eu seja uma pessoa calma, que gosta de tratar assuntos com a devida seriedade, me torno outra pessoa quando entro em contato com telemarketing. Altos níveis de sarcasmo, ironia e ódio fluem pela minha transpiração. De tão tenso, o clima à minha volta modifica a gravidade: coisas vão ao chão com muita facilidade.
Eu preferiria lamber a maçaneta do banheiro masculino do prostíbulo mais escuro da Paraíba do que atender de bom grado e coração aberto uma ligação de telemarketing. Se for da Teleborbs, prefiro degustar meio quilo da mais pura merda fabricada pelo intestino saudável dos mendigos indianos.
Meu mais atual problema com a Teleborbs começou na terça-feira, quando recebi uma correspondência da empresa. Era um encarte prometendo o dobro da minha velocidade atual (que já é rápida o suficiente) pelo mesmo preço nas mensalidades. “Sujeito à disponibilidade técnica existente na central telefônica”, dizia em letras miúdas.

A Teleborbs também é a campeã das letras miúdas.
Bom, vamos tentar ilustrar isso de outra forma. Você está caminhando pela rua empunhando uma nota de um real. Sabe-se lá porque você está segurando esta nota e não a carregando em sua carteira, mas isso não importa. O que importa é que, do nada, aparece um maluco descendo do prédio mais próximo de rapel e prometendo dobrar a quantia que você tem em mãos, sem dizer como fará isso e deixando claro que não é certo que o método vai funcionar, só garantindo que será absolutamente de graça e de boa fé.
Se existe algum retardado no Universo capaz de recusar uma oferta dessas, espero que ele seja devorado por uma manada de avestruzes raivosos ao final deste parágrafo.
Eu imediatamente saquei meu telefone, que anda pendurado em minha cintura tal qual uma Colt .45, e disquei meu número preferido - o número de atendimento “personalizado” da Teleborbs. Se é que é possível chamar um atendimento por reconhecimento de voz de “personalizado”. Ao invés do antigo menu, agora somos confrontados com um sistema que pede que você explique, calma e tranquilamente, o seu problema, para uma máquina bater com seu banco de dados e reconhecer que o seu problema é o mesmo que está registrado ali.
COMO SE FOSSE POSSÍVEL EU, NO AUGE DOS MEUS PROBLEMAS, CONSEGUIR FALAR PAUSADAMENTE A PORRA DO MEU PROBLEMA PRA UM COMPUTADOR
- Diga em poucas palavras o seu problema.
- A Internet não está conectando.
- Entendi: o croquete não está esquentando. Aguarde na linha para ser atendido por um de nossos representantes.
- Aumento de velocidade no Rapidy.
- Entendi: como derrotar o mago Babidi. Aguarde na linha para ser atendido por um de nossos representantes.
- Gostaria de falar sobre minha assinatura.
- Entendi: quero bacon. Aguarde na linha para ser atendido por um de nossos representantes.
Ao tentar pela décima quarta ou quinta vez, consegui achar as palavras-chave certas para ser atendido. Enfim, falaria com um atendente da Teleborbs. Acho que nem para falar com o rei da Austrália eu teria que passar por tamanha resistência.
Mesmo porque a Austrália não tem rei.
Fui atendido por uma guria que nem sequer lembro o nome - se lembrasse, estaria escrevendo o nome dela em um papel, colocando na boca de um sapo e depositando no alto de uma colina, no meio de um pentagrama desenhado com o sangue da menarca de sete virgens (defloradas naquele mesmo local), com uma vela preta em cada ponta. Sobre o sapo, derramaria o sangue de um bode e o ritual estaria completo.
Teríamos o ambiente perfeito para um show de death metal progressivo industrial norueguês.
A atendente perguntou em que podia me ajudar, e expliquei toda a situação a ela: eu queria saber como proceder para poder passar a contar com tal serviço adicional, sem o custo que normalmente implicaria. E também saber por que caralhos eu havia conquistado aquele milagre. A Teleborbs não dá nada de graça pra ninguém.
Ela me pediu um minuto. Eu, educadamente, lhe entreguei três ou quatro para ouvir um “só mais um momento, senhor”. Durante a espera, a Teleborbs implantou uma música absurdamente HORRÍVEL que começa a impregnar no seu cérebro como um vírus assassino e devorador de crianças africanas. Ao invés de colocar uma música tranquila, gostosa de ouvir, daquelas coletâneas “Sons do Universo volume 1″ ou coisa do gênero, algum estagiário homossexual e com as bilolas soltas preferiu uma música agitada e repetitiva, cujo nome ainda não consegui descobrir.
Porque quando você pede ajuda ao seu maior inimigo, tudo o que você quer é ficar ouvindo musiquinha pra te animar. Antes oferecessem trombetas e tambores, cantos de guerra, pintura facial e lanças.
Com o cérebro a ponto de explodir e uma paciência nos limites, enquanto jogava uma deliciosa partida de Bejeweled 2 Deluxe, finalmente a atendente se lembrou de mim. Para pedir mais alguns momentos. Foi a última vez que ouvi sua voz antes dela simplesmente desligar o telefone na minha cara.
Esse é o modo de atendimento personalizado da Teleborbs. Eles pedem seus dados, te fazem aguardar para TÃO SOMENTE terem o prazer de desligar o telefone na sua cara. Tentei ligar de novo mas não fui sequer atendido. Tentei mais tarde e fui atendido desta vez por um rapaz, que me indicou outro número que só serve para requisitar e instalar o Rapidy para novos usuários.
Se a guerra é vencida por pequenas vitórias, eu estava perdendo ela com extrema rapidez. Cada vez que um telefone era arremessado contra a minha face, era como se todos os meus soldados fossem mortos, pisoteados pelo terrível monstro de melancia e seus poderosos pés de melancia.
Como um último suspiro antes de encontrar o próprio Jesus num túnel de luz branca, na última sexta-feira tornei a ligar para o suporte técnico. Um rapaz me atendeu e eu não resisti.
- Olá, em que posso ajudá-lo?
- Olá, boa tarde. Na terça-feira recebi uma correspondência dizendo que a velocidade da minha conexão havia passado de 2 para 4 mega e eu não pagaria nada por isso. A conexão não mudou, gostaria de saber o que preciso fazer para habilitar isso.
- Com quem eu falo?
- Raphael.
- CERTO
- …
- …
- …
- …
- … oi? Tô desde a terça tentando falar com alguém aí e sou mal atendido por um, desligam na minha cara, me dão informações erradas. Tô ficando cansado, sabe.
- Só um momento senh- e o telefone foi desligado.
Eu não sabia se deveria voltar a ligar. Passei o final de semana todo com essa dúvida na cabeça: “Se eu ligar, ou vou jogar o nível da conversa lá embaixo ou vou ser ignorado de novo”. Esperei.
Nesta terça-feira, finalmente fui atendido por alguém que sabia o que estava fazendo. Como se ele fosse capaz de ler os rascunhos de textos deste blog, o atendente não só foi atencioso como resolveu parcialmente meu problema. A velocidade não aumentava por erro na central técnica, e pelo que entendi o suporte técnico só responde pela central comercial. Dentro de 48 horas, tenho esperanças, minha Internet estará voando baixo.
Finalmente conseguirei aquela coletânea de pornografia de anões albinos neozelandeses que tanto queria.
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