Exterminadores de telemarketing
Se estivéssemos andando pela mesma calçada e acidentalmente trombássemos violentamente, derrubando se café quente sobre minha camisa nova de dezenove reais da promoção, e você sem motivo aparente algum perguntasse o que mais me fez carregar ódio por todos os minutos de minha existência, eu responderia sem pensar: telemarketing.
Alguma coisa deve estar errada. Se existe alguma lista de telefones propícios ao telemarketing, meu nome não só está em primeiro lugar como está grifado com uma caneta marca-texto de criptonita, com seu charme discreto verde e brilhante, com uma placa de neon ao lado indicando que este é o melhor telefone do universo e que é retorno garantido.
Ledo engano. O termo certo seria DIVERSÃO garantida. Minha, claro.
Não é exagero: todos os dias, recebemos umas duas ou três ligações em casa de bancos oferecendo cartões de créditos, créditos pré aprovados, salada de crédito com molho de débito, acompanha poupança ao molho juros e um bom vinho Cheque Especial, único vinho do universo com validade de dez dias. Fora os bancos, lojas ligam para oferecer cafés da manhã pra minha vó, companhia telefônica liga pra dizer que não pagamos a conta e que vão cortar a linha em catorze segundos. Treze. Doze. Onze.
Na segunda-feira pela manhã, fui praticamente acordado por uma destas enviadas do inferno.
- Olá senhor bom dia, tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Ahhhh que bom, né?
- … ?!
- Com quem eu falo?
- Raphael.
- Oi Raphael, meu nome é Jucleide [inventado, não lembro], sou do grupo Estado, estou ligando pra confirmar o endereço do senhor para começar o envio das edições diárias do jornal qual o seu endereço?
Pausa. Primeiro que você pode perceber quais atendentes são e quais não são experientes. Provavelmente Jucleide havia dito as mesmas palavras para no mínimo quinze pessoas antes de mim, sempre com reações diversas. A minha falta do que falar perante a hospitalidade de Jucleide foi simplesmente ignorada por um “ah, que bom, né?” e emendado o resto do texto decorado sem se enrolar.
Outro fator determinante é o modo robótico de falar. Lembra da sua professora ensinando que onde tinha vírgula você tinha que parar, quebrar o ritmo da frase, dar uma pequena respirada e continuar? Perceba que eu mesmo não lembro, afinal uso estas belezinhas tão bem quanto uma ogiva nuclear seria bem utilizada na mão de um chimpanzé.
No final do texto havia uma pergunta. Antes da pergunta, um ponto. Este ponto foi simplesmente ENGOLIDO por Jucleide, como se ela estivesse ESPERANDO pelo derradeiro momento de perguntar meu endereço. Continuando.
- Ahn… hum… de graça?
- Não, não é de graça - adota um tom sério - o senhor receberia o jornal por dois meses, então começaríamos a cobrar a assinatura comum.
- Ah sim, tava achando meio estranho.
- Estaria interessado, senhor QUAL SEU ENDEREÇO
- Não, então, é que acabamos de assinar duas revistas, fica meio complicado assinar mais um jornal, né?
- Mas o senhor assinando o jornal o senhor concorreria a um carro no valor de 60.000 reais!
- Legal hein nossa rs
- Éééé né
- Então, senhor Adriano…
PAAAAAUSA. Porra, a mulher acaba de cometer um dos pecados capitais do telemarketing. Quando o assunto é tentar forçar goela abaixo um produto que o cliente NÃO quer, trocar o nome do futuro cliente é algo tão cruel quanto enfiar uma furadeira nos tímpanos de um gatinho, espalhando sangue, miolhos e restos de gatinho para todos os lados. É assinar o atestado de “perdão chefe, não consegui vender nada hoje”.
Trocar meu nome por “Adriano” indica que, durante toda a conversa, Jucleide estava passeando pela Internet em sites de namoro, procurando o amor da sua vida. Parou na página de Adriano, um moreno de três metros de altura, forte e sorridente. Seus músculos e seu peito cabeludo falavam mais do que o próprio perfil. Jucleide acabara de achar o amor de sua vida e não conseguia pensar em alguma coisa.
- Er… Raphael né
- Ah, desculpa, é que é tanta…
- Haha, tudo bem.
- Então Raphael, estaria interessado em receber os jornais?
- Olha, como eu te disse, tem as duas revistas e… - nessa hora, percebi que ela insistiria até que nossos telefones derretessem. Só havia uma coisa a fazer. - Seguinte…
- Hum - Jucleide responde com um ar de empolgação e interesse.
- … por mim, assinaria. Sério, sempre quis assinar um jornal e tal. Só que quem cuida dessa ‘área’, digamos assim, é minha mãe.
Os Exterminadores de Telemarketing, grupo criado para caçar e tratar mal todas as atendentes, com o objetivo padrão de tornar todo o Universo um lugar mais agradável, tem uma regra geral aplicada a todos os minutos de suas vidas.
SE A SITUAÇÃO FICAR INSUSTENTÁVEL, FINJA SER MENOR DE IDADE E APELE PRA MÃE.
Contra isso não há defesa. Elas não podem convencer uma criança a aceitar um produto. É como pedofilia: às vezes irresistível, porém sempre contra a lei. Ao botar esta regra em prática, você acaba de oferecer um prato de sopa de criptonita para Clark Kent. Ela pode não reparar, mas a conversa terminara ali e já tínhamos um vencedor.
- Humm… e que hora eu posso falar com ela?
- Olha, ela chega por volta do meio-dia.
- Certo, eu retorno a ligação.
- Tudo bem, rs
- Grupo Estado agradece, tenha um bom dia.
- Amém.
A batalha estava vencida, mas a guerra continuava. Hoje, poucos SEGUNDOS antes de eu sair pela porta e ir para o trabalho, o telefone toca.
- Olá senhor bom dia, tudo bem com o senhor?
- Tudo.
- Ahhhh que bom, né?
Eu conhecia aquela voz, aquele jeito de falar era inconfundível. Jucleide provavelmente estava infeliz com sua vida, tomado um fora de Adriano, que a trocara na noite passada por Zuleika, um travesti que afirmava para todos os ventos que tinha ascendência russa, mas não passava de um nerd branco de cabelos rubros e cara sardenta. No mais puro ódio, Jucleide pegou sua lista de telefones e viu o meu número grifado em cores brilhantes, decidiu ligar com sede de vingança.
- Com quem eu falo?
- Raphael.
- Oi Raphael, meu nome é Jucleide, sou do grupo Estado, estou ligando pra confirmar o endereço do senhor para começar o envio das edições diárias do jornal QUAL SEU ENDEREÇO?
Isso me fez pensar. Não sei exatamente no quê, mas uma situação assim é de se pensar em alguma coisa. Jucleide não havia ligado “para minha mãe” na segunda-feira, conforme tinha prometido. Ao invés disso resolveu ligar pra mim, no mesmo horário.
- Olha, eu acho que vocês já entraram em contato conosco tipo ANTEONTEM e eu já disse que não estava interessado.
- Ah sim… - ela ficou chateada, não houve dúvida - … mas você conhece alguém que poderia estar nos indicando?
Leia a última frase como “ok não consegui vender pra você, mas certamente você conhece alguém que não gosta e quer pregar uma peça hehe vai ajuda eu huahua nossa”.
- Acho que se eu fizer isso essa pessoa não vai gostar muito de mim, desculpa, não tenho ninguém pra te indicar.
- Tudo bem então, o Grupo Estado agradece, tenha um bom dia.
- TCHAL
Jucleide nunca saberia, mas ela tinha salvo minha vida. Ok, a vida não, mas minha integridade psicológica e minha pequena moral perante a sociedade talvez. Estava saindo de casa com a jaqueta pelo avesso.
Qual foi, nunca se vestiu com pressa não?
Categorias: Mundo Animal

Ok, éramos macacos, tínhamos garras fortes que nos permitiam descascar sementes e outros frutos de cascas duras e tudo mais. Todo animal tem garras. Mas só porque éramos macacos não significa que temos que carregar as características dos mesmos. Não pulamos mais entre os galhos, não sobrevivemos de bananas e não andamos com nossos derrières à mostra. Bom, pelo menos não na maioria do tempo.
Eles começam a se desenvolver na puberdade, junto com todos os outros pêlos do corpo. Eu, no auge dos meus 13 anos, já não conseguia mais admirar minha axila nua. Alguns demoram um pouco mais, e estes são os mais sacaneados pelos amigos na hora de tirar a camisa.
O Apêndice é a forma mais cruel da negligência de Deus quando nos projetou. Trata-se de um pequeno órgão sem função alguma ligado ao ceco, o começo do intestino grosso. A grande questão é: o que Deus tinha na cabeça ao manter um órgão tão imbecil dentro da gente, enquanto ele poderia simplesmente eliminar isso conforme nos evoluía como Pokemons?
Se Deus fosse um bom administrador, o custo-benefício do ser humano seria muito maior. Enquanto ele gasta tanto com tais itens de série sem função alguma, poderia gastar a mesma quantidade nos equipando itens mais interessantes.





